quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Bandeirantes no Guairá

O assédio dos bandeirantes, que passou a se intensificar a partir de 1628, tinha como objetivo capturar os índios para vendê-los como escravos a donos de canaviais e de engenhos de açúcar, pois a mão-de-obra escrava passou a ser mais escassa e mais valiosa, em vista do fechamento do porto de embarque de negros em Angola e do risco dos navios negreiros sofrerem ataques da pirataria oceânica.
Em 1580 os bandeirantes (Capitão Jerônimo Leitão) já capturavam índios na região para comercializá-los, investida que se repetiu em 1599, em 1602 (Nicolau Barreto), em 1606 (Diogo Quadros e Manoel Preto), em 1607 (Belchior Dias Carneiro), em 1610 (Clemente Alvares, Cristóvão Aguiar e Bras Gonçalves), em 1611 (Pedro Vaz de Barros), em 1612 (Sebastião Preto), em 1615 (Lázaro Costa).
Em 18/09/1628, saiu de São Paulo a maior de todas as bandeiras, com destino o Guairá, composta por 2.000 índios tupis, 900 mamelucos e 69 paulista, tendo no comando o mestre-de-campo Manoel Preto e como imediato Antônio Raposo Tavares, auxiliados por Antônio Pedro Brás Leme, Pedro Vaz de Barros, Salvador Pires de Medeiros e André Fernandes. Também acompanharam a bandeira padres seculares.
Em janeiro de 1629, a bandeira chegou na região e atacou sucessivamente às reduções San Miguel, San Antonio, Jesus Maria, Encarnacion, San Javier e San Jose. Nessa investida foram mortos em torno de 15 mil índios e escravizados perto de 60 mil, para serem vendidos em São Paulo e em capitanias do norte. Com isso a oferta de mão-de-obra indígina foi tanta, que o preço de cada índio no mercado baixou de 100$000 para 20$000.
Os índios, que não foram aprisionados ou mortos nessa investida, debandaram pelo sertão ou atravessaram o rio Paraná, espalhando-se pela região onde hoje se localizam o Mato Grosso e o Paraguai.
Depois desses ataques, por recomendação do provincial Padre Francisco Vasques Trujillo, os jesuítas reuniram-se em conselho e resolveram abandonar o Guairá, sendo atribuído aos padres Montoya, Dias Tanho, Simão Maceta e Pedro Álvarez a tarefa de dirigir o êxodo. Além desses padres, haviam outros três que auxiliaram na transmigração.
Dos índios que tinham debandado, 7.000 voltaram e se incorporam aos outros 5.000 que viviam nas reduções de Loreto e San Inácio, ainda não atacadas pelos bandeirantes, somando 12.000 almas, prontas para a mudança.
Em pouco tempo 700 jangadas e numerosas canoas estavam às margens do Paranapanema e puseram-se a enfrentar as inúmeras cachoeiras e tantos outros perigos, inicialmente no Paranapama e depois do rio Paraná (com portugueses paulistas ao seu encalço e espanhóis atacando pelas margens).
Quando chegaram nas cataratas de Guairá (Sete Quedas - Salto Grande), passaram também a andar a pé. Nessa altura já estavam quase sem comida e com tantas outras privações.
A fadiga, os obstáculos cada vez maiores, as doenças, o sofrimento, as pessoas idosas, os acidentes, passaram a provocar um desalento muito grande em todos.

Sobreveio a fome, com todos os seus horrores, pois nada encontravam ou tinham para satisfazê-la. Então, passaram a comer as sementes que transportavam, os brotos das que germinavam, couro de vaca já seco, cobras, sapos e tudo mais que encontravam e que servia de alimento.
A desesperança tomou conta de todos e para piorar uma epidemia baixou sobre todos os retirantes, matando 2.000 mil índios, depois de tomarem o sacramento. Em vista disso, 6.000 debandaram, sobrando apenas 4.000 dos que tinham iniciado a viagem.
A situação só se amenizou quando encontraram, nas margens do rio que navegavam, uns aipos que cresciam até um metro de altura, de gosto salgado, mas comestíveis. Esses aipos, conforme iam sendo arrancados, logo rebrotavam, saciando provisoriamente a fome de todos.
Nessa altura novos recursos passaram a chegar, pois os padres do baixo Paraná lhes socorreram com gado bovino, que foi colocadoà disposição dos famintos.
Com a chegada de nova estação de plantio, os índios passaram a cultivar a terra e garantir futuras colheitas de milho, feijão, mandioca, batata e algodão.
Na época os padres também conseguiram arregimentar um rebanho com 1.800 ovelhas, para produção de lã, além de plantéis de porcos, patos, galinhas e pombos que se formaram, voltando a abundância para esse povo que sofrera tantas privações.
Era o ano de 1631. Um templo foi erigido, grande e belo, e a vida dos antigos cristãos do Guairá voltava ao normal, agora nas margens do rio Paraná, onde hoje é a Argentina, que recebeu as reduções com os mesmos nomes de San Inacio Mini e Loreto.
Em meados do século XVII, já não havia mais espanhóis no Guairá. A ocupação que durara cerca de um século, desde 1542, quando o Adelantado Don Alvar Nuñes Cabeza de Vaca, após desembarcar na costa catarinense, percorreu rios e planaltos paranaense, utilizando-se principalmente do caminho do Peabiru, com duzentos homens, rumo a Assunção, até o fim dos anos 1640, quando os bandeirantes acabaram de destruir os povoados espanhóis que lá permaneciam - Villa Rica e Ciudad Real del Guairá, época que coincide com a ocupação efetiva do litoral paranaense pelos portugueses.
Da localização das reduções e povoados do Guairá hoje pouco se sabe. Graças aos trabalhos de pesquisadores e arqueólogos do Museu Paranaense e da Universidade Federal do Paraná, conhece-se a localização da Villa Rica del Espiritu Santo e dos povoados missioneiros de Nossa Senhora de Loreto, San Inácio Mini e San Pablo, dos quais ainda existem vestígios.

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