domingo, 20 de dezembro de 2015

Aos 88 anos, Maria Lopes Morales tem saúde e boa memória.

A aposentada Maria Lopes Morales, era criança quando veio de Catanduva (SP) morar no Paraná. Hoje, aos 88 anos, ela se recorda que o Paraná era coberto de matas virgens, quando seu pai comprou 15 alqueires de terras para o cultivo variado. “Viemos em quatro caminhões e fomos morar em Londrina, as margens Ribeirão dos Apertados. Para ir da zona rural à cidade, era preciso caminhar 23 quilômetros”, recorda.
Com uma cultura não muito diferente de hoje, eles plantavam milho, feijão e café. “Eu abria covas e meus irmãos plantavam milho. Na colheita juntávamos tudo e transportávamos em carroças ao celeiro. Trabalhávamos na lavoura de sol a sol”, cita. Mesmo com o trabalho árduo, Maria Lopes sonhava em ler e escrever, porém, como o pai era bravo, teve dificuldades. “Meu pai ensinava as pessoas a ler e a escrever, sob a luz de lamparina. Pedi que me ensinasse. Com uma cartilha em mãos, mas sem conhecer nada, aquilo era uma novidade. No entanto, devido ele gritar muito comigo, tive dificuldades e não me interessei mais pela leitura e escrita”, lamenta.
Além de trabalhar no campo, Maria Lopes vendeu produtos agrícolas e alimentos diversificados em feiras livres de Londrina. Ela acordava às 4 horas da manhã. Atualmente confecciona e vende bordados.

Morando em Jataizinho há 14 anos, vive com a filha Rosa Rodrigues de Oliveira e o genro Milton Firmino de Oliveira, proprietários de uma padaria no centro de Jataizinho. 

Retratando a história: Noel de Oliveira fez mais de dez mil fotografias em Jataizinho.

          O aposentado Noel de Oliveira é uma lenda viva em Jataizinho. Nascido em 1945 e hoje, aos 68 anos, se dedica a venda de caldo de cana. Porém, no passado era conhecido pelas fotografias. “Meu irmão tinha uma máquina fotográfica e sempre admirei seu trabalho. Quando se mudou para São Paulo, comprei a máquina e fazia fotos em pequenos binóculos, algo popular na época, mas raro hoje em dia. Com a digitalização e maior acesso as novas tecnologias, a atividade caiu, me obrigando a mudar de ramo”, lamenta.
Aos 23 anos, em 1968, Noel trabalhava num frigorifico, conciliando com a atividade de fotógrafo ambulante, de casa em casa, vendendo binóculos. Ele fazia a foto, revelava o filme em Londrina e cortava os internegativospara colocar nos binóculos. “Muitos ainda têm e as fotos são as mais variadas possíveis. Os jovens e adolescentes nem imaginam como se fazia, pois hoje as imagens são digitais e instantâneas, obtidas a partir do celular”. Tamanha era a popularidade do binóculo, que nas festas da igreja, Noel cobrava para as pessoas olharem nele. “A era digital findou os fotógrafos tradicionais, pois os trabalhos estão concentrados na internet. Não existe glamour, mas o celular faz uma foto de excelente qualidade. Não se contrata fotógrafos como antigamente, pois muitos têm seus meios e recursos. Estamos na Era Digital”, diz.
Mesmo com a Era Digital pujante Noel é remanescente da “Era Analógica” e ainda oferece seu trabalho pelas ruas de Jataizinho, atuando como fotógrafo ambulante. Em sua bolsa, carrega a máquina fotográfica analógica. É uma Zênite 300 com flash, onde os filmes revelados em Londrina. “Com a Zênite 300 registrei aniversários, casamentos, batizados e as mais variadas festas, que viraram álbuns de excelente qualidade. A foto antiga era de menor qualidade. Mas, os laboratórios melhoravam o trabalho”, conta.
Noel diz que não foi o primeiro fotografo da cidade. Antes dele havia um japonês, chamado Maeda, que trabalhava na praça central, com imagens em preto e branco. “Nunca fiz foto 3x4, usadas em documentos. O comum são os tamanhos 9x13 e 10x15. As ocasiões que motivavam as pessoas a tirarem fotografias, eram diversas, como crianças que vestiam roupa nova, ou uma formatura. Fiz mais de dez mil fotografias e tenho muitas em casa. Mas, devido o tempo, elas estragaram”, relata.

Entre as curiosidades relatadas, está a dos que após anos, vêm a sua procura afim de resgatar fotografias antigas, algumas com mais de 40 anos. Outra curiosidade são os clientes que solicitavam a retirada de centenas de fotos, mas no momento de pagar não tinham dinheiro, ou pediam fiado. 

A historia do Bartoldo de Jataizinho: o sucesso se dá pelo trabalho.

Bartoldo Bernal Martins conta a Folha de Jataizinho que sua família chegou ao Paraná em meados de 1959, vindos de Cafelândia (SP). Primeiramente foram morar em Florai, onde ficaram três anos e teve a oportunidade de estudar o primário. “Em 1963, devido uma forte geada, meu pai vendeu o sitio que morávamos e mudamos para uma fazenda no Taquari, de propriedade de seu primo, dono da Moval em Arapongas. Trabalhamos como empregados e aos doze anos de idade trabalhei com ardor para ajudar o sustento da família. Por conta disto, conseguimos montar uma olaria de tijolos e com o dinheiro ganho meu pai possibilitou que minhas três irmãs se formassem professoras, ofício que exercem até hoje em Jataizinho”, recorda.               

Com a luta diária, junto ao pai, aos 18 anos Bartoldo começou a trabalhar na olaria, agora dirigindo um caminhão. “Entre 1966 e 1967 entregava tijolos em Londrina. A olaria se chamava São Luís e em 1971 meu pai trocou o nome para Cerâmica Palmeira, empresa que mantém o nome até hoje, localizada no Parque Industrial Garrastazu Médici. Naquela época, a Zona Norte de Londrinaera apenas o Conjunto Milton Gavetti. Londrina cresceu e onde é a Gleba Palhano, havia apenas mato e eucalipto. Jataizinho era composta pela Vila Lucaresci, conhecida por Vila Frederico. Só tinha Jatay e a Vila, com umas 40 casas e cinco olarias”, pontua.                               

Aos 63 anos, Bartoldo Bernal Martins é pai de três filhas e trabalha com o irmão. “Nestes 50 anos a produção do tijolo se transformou. O trabalho braçal deu lugar à mecanização de 80% do processo de fabricação. E, devido àsleis ambientais, a argila não pode ser extraída dos rios. Ela é comprada em Curiúva ou Sapopema e a trago de caminhão”, diz.                                                                                                        

Com uma empresa que gera cerca de 40 empregos, Bartoldo lembra que trabalhou muito na vida, em jornadas que chegavam a 18 horas, produzindo tijolos dia e noite. “Carreguei muito barro com pá, além de puxar argila e tijolos no caminhão. Hoje está mais fácil devido os instrumentos como pá carregadeira e, por conta da idade, trabalho na administração da olaria”, afirma.                                                           

Mesmo sendo um empresário de sucesso, que trabalhou muito para chegar onde está e que acompanha o vigor da construção civil, visto que seus produtos são vendidos para oito construtoras de Londrina, Bartoldo não esquece os amigos e sempre que pode os encontra no Restaurante Casarão para bater um papo e recordar as lembranças passadas e atuais de Jataizinho. “Só tenho amigos e onde passo todos me cumprimentam. O tempo e a vida na cidade mudaram as coisas. Com sete anos trabalhei na roça. Diferente da cidade, hoje se começa a trabalhar com idades superiores”, diz. 
                                                                                                           
Gerando cerca de 400 empregos, Bartoldo cita que as cerâmicas existentes em Jataizinho não fecham, pois são estruturadas. Mesmo que os donos e fundadores venham a falecer, seus filhos darão continuidade aos trabalhos.

Maria Madalena da Costa Bueno, hoje com 90 anos, nasceu em 16 de agosto de 1924 em Itaporanga (SP), onde seu pai era fazendeiro e engordava porcos. Aos 17 anos se casou com Benedito Silva Bueno. Ambos trabalhavam no campo, ele na lavoura e ela numa chácara com horta, engenho de garapa e pequenas criações. “Era em torno de 1944 e trabalhávamos em 35 alqueires de terra. Infelizmente naquele ano,perdemos quase tudo devido uma grande geada”, recorda. Deixaram as terras e vieram ao Paraná em 25 de abril de 1945, onde desembarcaram na antiga estação ferroviária de Jataizinho. “Arrendamos um bar em Assaí, que na época tinha muitas pessoas vindas do Japão e seus descendentes”. No mesmo ano vieram morar em Jataizinho, alugaram a casa do senhor José Zaninni e montaram um bar na atual Rua Antônio Brandão de Oliveira, onde hoje se localiza o Depósito Santa Mônica. Ela recorda que ao ir comprar produtos em Londrina, obteve dez caixas de banha e dez sacos de açúcar. A banha era vendida em pacotes vindos de Ponta Grossa. “A gordura utilizada na época provinha diretamente do porco e não era industrializada. A banha foi vendida rapidamente e o capital começou a crescer. Devido a isto o ponto comercial se valorizou e o vendemos em 1950. Meu esposo investiu cerca de 58 mil cruzeiros (da época) para montar uma casa de secos e molhados, ferragens e roupas. Com o comércio dando lucro, meu pai ficou doente e passou um telegrama para dar a notícia. Sabendo disto, Benedito cortou o cabelo e fez a barba para ir à missa, pedir rezar pela melhora do sogro. Mas, por conta dum temporal, perdemos tudo, o que não deixou ele abalado”, recorda Maria Madalena, ainda lúcida e com saúde. “Uma cerâmica doou tijolos e telhas para um novo prédio. Mas como era demorado para construir, fomos a Ibiporã e compramos madeira. Fizemos uma casa com a frente de tijolos e o restante de madeira. Abrimos um novo comercio, mas com o falecimento do esposo, em 1953, vendi tudo”, cita.                                                                                                
Após isto, ela trabalhou como cabeleireira e nos meados dos anos 60 montou umapensão, frequentada por diversas pessoas, como o professor Dídimo; a senhora Maria Capucho; o farmacêutico Gilson Beloni;o cartorário Jesuíno;o gerente da antiga Pernambucanas, Osvaldo de Lima, conhecido como Vaca; Evilásio Rangel Cordeiro, um dentista prático que viera do Rio de Janeiro; e a família Lacerda, composta por JoséCorreia de Lacerda, Cícero Correia de Lacerda, Osvaldo Correia de Lacerda e Pedro Correia, que vieram montar uma fábrica de fumo. “Tinha por inquilino numa casa de onze quartos, o delegado Avelino Alves Pereira, que não pagava aluguel. Com seu despejomontei a pensão, na RuaBrandão de Oliveira. Na época um clube em Jataizinho e o trem passava em dois horários: dez horas o misto, com cargas e quatro vagões de passageiros e o das 16 horas com passageiros da 1ª e 2ª classe, vindos de Maringá com destino a Ourinhos. Na pensão servíamos almoço e janta para cerca de 18 pessoas quem vinham trabalhar em lojas e bancos de Jataizinho”, revela.           Se estivesse vivo, o esposo Benedito da Silva Bueno estaria com 96 anos. Seus filhos, ainda vivos, são a Maria de Lourdes, professora de português e inglês, que faz 70 anos setembro; o advogado Joaquim Carlos Bueno, de 67 anos; e a professora Maria Inês, de 62 e casada com Nivaes Pereira Pardim. Os três filhos lhe deram doze netos.                                                                                                                        
Viúva desde os 27 anos, Maria Madalena da Costa Bueno não casou novamente por ser conservadora e hoje, entre as memórias que se misturam ao presente, estão o cinema de Jataizinho, um balcão e uma cristaleira com mais de 70 anos, móveis da época que se casou.

Aos 90 anos, Vicente Pereira é a memória viva das olarias.


“Quando o oleiro vê o barraco, ele se inspira para fazer tijolos. Sua vida se restringe à olaria”. Nesta frase, Vicente Pereira define a vida do oleiro. Aos 90 anos, ele não recorda a época que chegou a Jataizinho e, após se estabelecer não retornou à terra natal, Muriaé, em Minas Gerais. Vindo direto para a Água Branca, na antiga Maria Fumaça, ele é mais um mineiro que colonizou o Norte do Paraná. Exibindo saúde e lucidez, sua única reclamação é a diabetes e dores nas pernas, decorrentes da idade. Mesmo assim ainda roça e capina o mato da propriedade.                                                                       
Hospedado na casa de parentes, seu primeiro trabalho foi com o saudoso Sebastião Corsino e logo após, foi para a Fazenda São José, onde lidou sete anos com gado. Após isso se casou e montou a olaria V.P. em Frei Timóteo com o sogro Artur Damásio. Vivendo no local há 58 anos, Vicente Pereira recorda que a idéia de montar a olaria se deu da seguinte maneira: Sempre que passava na Estrada de Frei Timóteo, às margens do Tibagi, via um barranco de barro. “Chamei o dono das terras, o fazendeiro Severino Félix, para montar o negócio. Com o passar dos anos a propriedade foi vendida e em comum acordo entre vendedor e comprador foi decidido que eu ficaria na propriedade”, recorda. Mesmo com o bom rendimento financeiro, Vicente Pereira perdeu diversos animais como burros, vacas e bois, investidos no negócio. “Com a decadência das cerâmicas perdi quatro burros e vendi as vacas para manter o empreendimento”, recorda Vicente Pereira, que ao mesmo tempo se orgulha de ter ajudado a construir grandes cidades e se entristece por não ter construído sua casa.               
Casado com Benedita Damásio Pereira, de 74 anos, e pai de Florizia Pereira Damásio Leite, Neuma Aparecida Risique e Celso Pereira Damásio, o oleiro cita que a marca V.P. é vista em construções antigas, nos tijolos maciços e comuns. “Começamos a produção em meados de 1955, com fabricação artesanal e diária de 1500 unidades, feitas por cinco pessoas. Os produtos V.P. são vistos em diversas cidades e a Cerâmica Jacutinga foi um grande comprador, chegando a adquirir 30 mil tijolos de uma única vez”, pontua.                                                                                                                
Quanto à passagem do tempo muito se transformou, principalmente a Estrada de Frei Timóteo. Bem movimentada, é a única barreira que separa a antiga olaria do Tibagi, local de onde Vicente Pereira tirou muito barro. “Fiz uma passagem por cima da linha do trem e usava carroças para puxar barro. Era um sacrifício. E, nestes quase 60 anos, houve declínio na quantidade de peixes do rio. Nos tempos áureos, o número de peixes era tamanho, que após as pescarias minha esposa não agüentava ver tanto peixe e mandava devolver ou doar. Os mais antigos se recordam do período como a Época do Barbado. Infelizmente hoje tem pouco peixe e muito pescador”, pontua.                                                                       
Foi nesta época que se desenvolveram diversas olarias de famílias tradicionais, como Galli, Risique, Perti, Odovaldo, Dionisio Stricker, Zé Mineiro, Bialta, Furlan, Olivio Tini, Domingos Diana, Angelin Causa, Alberto Negro, Augusto Lourenço, João Dib, Paulo e Moacir Contierio, São Chapina e a do José Luis, popularmente conhecido como “Cachorro Louco”. Onde hoje é o Clube de Campo havia uma cerâmica. Às margens do Tibagi, após um levantamento, há vinte anos, numa extensão de vinte quilômetros contou-se mais de oitenta olarias entre Ibiporã e Jataizinho.                                              
Vicente Pereira recorda com saudosismo de Mauro Pierro, ex-prefeito de Ibiporã e também contador em Jataizinho. Ele cuidava dos negócios de várias cerâmicas. O escritório, que ainda existe, hoje é administrado pelo filho, Mauro Pierro Filho.                                               
Na história de Jataizinho, as cerâmicas e olarias foram de extrema importância para o crescimento de várias cidades, além de trazer dinheiro de fora para aplicar aqui. O desenvolvimento imobiliário e da construção civil se deve a este profissional: o oleiro.

Fundado no ano 2000, Conselho de Segurança Comunitário busca ações efetivas e tem amplo apoio dos comerciantes.

O Conselho de Segurança Comunitário foi criado no ano 2000 e tem como presidente Milton Firmino de Oliveira, de 73 anos. Um dos fundadores, ele afirma que o conselhoé um elemento que auxilia na segurança da comunidade. “Ajudei na constituição do Estatuto e no registro da entidade junto ao Ministério Público do Estado e União. O Conselho tem por finalidade corrigir falhas de segurança que possam existir. Ele estáem contato com a polícia, observando o que há de errado, para levar ao conhecimento da lei”, diz.                                                            
Milton Firmino cita que o maior problema relacionado a segurança de Jataizinho é a defasagem relacionada a recursos, equipamentos e material. Porém, os profissionais da área de segurança pública são competentes e comprometidos, não medindo esforços para levar tranquilidade aos moradores. Em relação as ocorrências, ele enfatiza que a cidade já foi violenta, mas devido o trabalho da Polícia Militar, que ampliou o efetivo e veículos, hoje pode se dizer que a situação mudou bastante. “Isto se deve a influência direta e ações do Conselho de Segurança e principalmente ao trabalho da Polícia Militar. Quando vemos que algo não tem resolutividade, procuramos o sargento, discutimos e chegamos a um consenso para dar o melhor a comunidade”, pontua.                                 
Composto por seis membros, o Conselho de Segurança Comunitário tem reuniões mensais e não abertas ao público. A participação popular ocorre em situações específicas, geralmente quando há um problema e cabe aos munícipesopinar a respeito de possíveis soluções. Milton Firmino ressalta que entre as ações efetivas está a cobrança para que as viaturas funcionem plenamente, não podendo faltar combustível e manutenção. “No período que havia a Delegacia da Policia Civil no município, solicitamos ao Governo do Paraná a troca das viaturas que estavam precárias, pedido que foi atendido. A falta da mesma (delegacia) torna algumas áreas ineficientes, pois diversos casos são resolvidos em Ibiporã. Falta uma atenção especial para Jataizinho e ativar a delegacia seria um passo importante”, afirma.                                                                                   
Com amplo conhecimento em segurança, Milton Firmino se empenha no que faz e parabeniza os habitantes de Jataizinho, pois como citado anteriormente, são eles que fazem a cidade ser tranquila e segura, onde o morador pode sair à noite e não presenciar ou ser vítima de violência ou aborrecimentos. Quanto aocomercio, o conselheiro ressalta que não há ocorrência de furtos e roubos. “O comércio apoia piamente o conselho, uma vez que ele reforça nosso trabalho e nos dá força e autonomia para exigirmos melhorias”, finaliza.



Aos 87 anos, Joaquim Leiteiro foi tropeiro, domador de cavalos selvagens e tem lembranças das boiadas cruzando as ruas de Jataizinho.


Personagem da história de Jataizinho, Joaquim Felisberto Nogueira, o popular “Joaquim Leiteiro” é natural de Campestre, Minas Gerais. Antes de chegar ao Paraná foi morar em São Pedro do Turvo, em São Paulo, onde laborou na pecuária. Á trabalho, veio para Uraí ainda solteiro e conheceu Maria Loyola, hoje com 92 anos. Desta união resultou-se cinco filhos, treze netos e dezesseis bisnetos. “Cheguei em São Pedro do Turvo aos 18 anos e comecei a trabalhar como leiteiro. Também fui tropeiro, onde conduzia mais de 60 cabeças de gado entre São Paulo e Paraná, vindo os comercializar em Uraí e Jataizinho, especificamente na Serra Morena. Éramos três cavaleiros: um conduzia o rebanho pela frente. Os outros vinham atrás. Isto foi nos fins dos anos 40 e início dos anos 50. A viagem durava seis dias, dormíamos ao relento e comíamos a ‘bóia’. Hoje mudou. Os animais são transportados de caminhão”, recorda Joaquim Nogueira. 
                                                                                                                     
Foi numa destas viagens que ele chegou a região e não o deixaram mais voltar, devido o reconhecimento de seu trabalho. Vindo morar na Serra Morena, no Sítio Alto Alegre, Joaquim Nogueira começou a trabalhar com gado e porcos, sendo que seu interesse maior era a atividade de leiteiro, função que exercia desde o retiro a venda de porta em porta. “Comecei com uma vaca e conforme trabalhava aumentava a quantidade de animais. Além do leite, fabriquei e vendi queijo. A princípio as entregas eram a burro e a cavalo, onde colocava dois alforjes, com um galão de cada lado e passava de casa em casa. Com o tempo o transporte era feito em carroças e depois numa caminhonete”, lembra. Vendendo leite em canecas de meio litro ele chegou a ter mais de cem vacas e uma rotina que se iniciava pela manhã com o retiro e que terminava as 11 horas, quando o produto estava nas casas de Jataizinho. “A pessoa ainda dormia e lá estava o leite na sua porta”, recorda.                                                                

Atuando como pecuarista e agricultor, com o passar do tempo ele adquiriu terras em Jataizinho e Campina da Lagoa, onde aluga o pasto. E neste período, a grande lembrança foi a compra em Londrina, na Jabur, de uma caminhonete zero quilometro: uma Toyota Bandeirantes 1972. O veículo, pago em duas parcelas com a venda de leite, está em perfeitas condições e ainda hoje é usado. “A Toyota mudou radicalmente a forma de trabalhar. Com ela eu entregava cerca de 300 litros de leite na cidade pela manhã. Á tarde, comprava leite nas fazendas, como a do Doutor Justino Alves Pereira, para entregar no Laticínio Estrela, em Ibiporã. Transportava mais de mil litros e fazia duas viagens”, diz.             
Curtindo a aposentadoria, tendo formados os filhos e netos como professores, comerciantes, empresários e engenheiros, além dos familiares administram seus negócios, ainda hoje Joaquim Nogueira é reconhecido na rua por Joaquim Leiteiro. “As pessoas guardam na memória os dias que eu andava de burro e à cavalo nas ruas de terra entregando leite. Vinha da Água das Flores até o Restaurante São Paulo. Passava na Avenida Antônio Brandao de Oliveira, onde moro há mais de 50 anos, na época que nem havia asfalto. Era nesta avenida que também passavam as boiadas com mais de 200 animais que iam para os frigoríficos ou fazendas da região”, recorda.                                                                
Aos 87 anos, há apenas dois anos ele deixou de montar a cavalo e carroça, quando vinha da área rural para a cidade. Mas, em oportunidades especiais, como cavalgadas e encontros de cavaleiros, faz questão de participar. Outro fato marcante foi quando os transportes como carro e ônibus não eram tão populares. Quando trafegava pela estrada, seja de carroça ou caminhonete, era comum os vizinhospedir carona. “Isto acontecia a quem ia trabalhar, estudar ou mesmo trazer compras”, recorda.                                 

Grande domador de cavalos, Joaquim Leiteiro teve a oportunidade de ganhar dinheiro com esta atividade, uma vez que comprava animais selvagens a preços baixos e após os domar, vendia para carroceiros. Outra atividade que lhe deu retorno foi a engorda e venda de porcos aos frigoríficos. “Isto era feito com leite, soroe queijo que sobrava, muitas vezes misturados com sangue de boi, vindos dos frigoríficos”, finaliza. 

Pioneiro da rua Benjamin Giavarina, Manoel Salomão é o único sobrevivente de um incêndio na antiga Indústria de Óleo Tibagi.

É numa casa de perobada cor azul localizada na Rua Benjamin Giavarina que reside o casal Manoel Vicente Salomão e Rosa Salomão. Aos 83, nascido em Belo Horizonte, Minas Gerais, ele chegou ao Paraná em 1950 para trabalhar na Fazenda Monte Belo, de Potiguara Medeiros, em Frei Timóteo. Ele era administrador e lidava com gado e café. Um de seus patrões, na propriedade, foi Sebastião Toledo. Segundo Manoel Salomão, posteriormente a fazenda foi vendida para Augustinho Ducci, de Cornélio Procópio. “Guardo lembranças de quando vivia na Fazenda Monte Belo e lembro do rosto de cada pessoa que conheci, como o João Moya, onde ia à sua venda e trazia as compras na carroça ou à cavalo. Ou mesmo quando Potiguara Medeiros comprou um caminhão da 2ª Guerra Mundial que nos levava à cidade, ou das viagens no trem misto, que partia da Estação de Frei Timóteo”, recorda.                                                                                

Vindo morar em 1964 na área urbana, na casa de peroba que vive até hoje, ele criou dez filhos. Na cidade pôde trabalhar na Irpasa, a antiga Indústria de Óleo Tibagi, em Ibiporã e depois na Anderson Clayton, em Londrina, como ensacador de algodão. Foi na Irpasa que ele presenciou uma grande tragédia que lhe causou deficiência auditiva e a morte de oito companheiros no qual recorda o nome de alguns: Vicente de Paula, Osvaldo Fernandes, Expedito de Andrade e José Pereira. “Havia um vazamento de gás no armazém que trabalhávamos. Ele permaneceu assim por vários dias e mesmo cientes do problema, nenhuma atitude foi tomada. Num determinado dia um parafuso caiu na hélice do moinho, gerando uma faísca, posteriormente um ciclone de fogo e um grande incêndio. Como o ambiente estava repleto de gás e as pessoas o inalavam, eles morreram por queimaduras internas”, afirma. Manoel Salomão foi o único sobrevivente porque fazia tratamento médico e se ausentou do armazém, não respirando o gás. Em sua lembrança, era desesperadora a cena dos amigos se debaterem em chamas junto aos vagões de trem.                 
Nesta época ele já era um dos moradores mais antigos da rua Benjamin Giavarina e fez diversos amigos, como Joaquim e Madalena Lopes, onde os filhos das duas famílias foram criados juntos, num período que não havia asfalto eenergia elétrica. Com a tragédia Manoel Salomão se acomodou. Mas antes disso era reconhecido por ser um homem trabalhador e que gostava de lidar com animais, especificamente no retiro de leite e em domar cavalos. “Sempre fui carroceiro. Pegava animais brutos e os colocava na carroça para os amansá-los. Os domava no próprio trabalho, onde os levava num carrinho e o outro na carroça, os ensinando a puxar o veículo”, recorda.                                                                        
Da rua Benjamim Giavarina as lembranças afloram a cada palavra, como a imagem do comerciante Climax Chaves e do saudoso José Oliveira Lima, o Zé Mineiro. “São muitos que não estão entre nós, como o Antônio Loci, que era da Folia de Reis e do Cedilho, que vendia galinhas até para São Paulo, onde um caminhão vinha buscar os animais vivos. Numa destas empreitadas, como tinha carroça que transportava umas 50 galinhas, fui com o Joaquim Lopes comprar os animais no atual Clube de Campo. Inesperadamente fomos assaltados no caminho e levaram todas as galinhas”, pontua.                                                                        
A custo do trabalho Manoel Salomão comprou várias casas e hoje vive de aluguel. “Com a graça de Deus criei filhos e netos. Nesta vida posso me orgulhar de um dia ter sido retireiro de leite, saqueiro, além de carroceiro”.

Aos 80 anos, Benício Pereira já foi dono de açougue e matadouro.

“Tenho lembranças de Guaxupé, quando possuía seis anos”, diz Benício Pereira, que aos 80 anos passa os dias sentados em frente à sua casa observando o movimento e conversando com as pessoas que transitam pela Avenida Getúlio Vargas. O aposentado foi açougueiro durante 40 anos, sendo que sua família chegou aqui para exercer atividades comerciais diversificadas. “Viemos de trem e me recordo da viagem com saudades. Daquele período aos dias atuais muito se transformou”, afirma.
Entre as atividades exercidas por Benício Pereira, a que mais se destacou foi o açougue instalado na Avenida Caetano Munhoz da Rocha, próximo a antiga rodoviária. No estabelecimento a carne vendida era procedente de um matadouro próprio. “Para abastecer o açougue era preciso muito trabalho no matadouro. Os bois vinham de sítios e fazendas próximas. A mim cabia matar os animais e os transportar. Nesta época possuía 42 anos e os principais meios de transporte que ajudavam na locomoção eram as caminhonetes. A desossa também era feita no açougue”, pontua.
Ao custo de muita dedicação e trabalho, Benício Pereira sustentou a esposa e criou três filhos: Maria Angélica Pereira Coleto, Mário Célio Pereira e Benício Pereira Filho. “Vendi o açougue e me aposentei, pois trabalhei muito na vida. Minha esposa freqüenta a Igreja Católica e ajuda na assistência social”, declara. Com saudades de Guaxupé, local a qual ele não retornou, Benício Pereira diz que um de seus desejos é ir à cidade natal para rever amigos e recordar lembranças da infância.


Tonil: o autentico caipira que representa a história Norte Paranaense.

A representação da cultura norte paranaense de manifesta pela música. Um dos expoentes da cultura Pé Vermelho é o músico e compositor Ermiliano Costa Domingues, de 72 anos, conhecido por Tonil, da dupla Tonil e Tonel. Vindo de Guaraí (SP), ele aprendeu a tocar viola aos 10 anos com o tio Gumercindo Costa Rodrigues, que o viu como um futuro violeiro. “Daqui a 50 anos você será o Rei da Viola”, recorda as palavras do tio.                                        

Sendo um violeiro tradicional, nascido e criado no campo, Ermiliano ensinou o irmão a tocar e cantar, formando a dupla Tonil e Tonel em meados de 1956. Com autoria de várias músicas de raiz, gravou LP´s, CD´s, tem composições na internet e se apresentou por todo país, como parques, cinemas, caminhões, circos, palanques políticos e rodeios. “Íamos ao circo da Água das Flores, que tinha a igreja e a escola cercada por poucas casas, mas com muita gente da área rural. O circo lotava”, diz. Entre as músicas conhecidas está “Rainha Boiadeira”, que relata a história verídica de um circo, onde havia um boi bravo. Foi aí que chegou uma moça e solicitou montar o animal. Com facilidade ela o dominou. Ao perguntarem seu nome, disse que viera de Andradina e era filha do Rei do Gado”, pontua o cantor, emocionado com o relato.                                                                                                                        
A vida artística de Ermiliano Domingues não se resume apenas aos palcos. Ele se apresentou em emissoras de TV, além de por mais de vinte anos ter programas no rádio, como a Marajoara de Ibiporã, Metropolitana de Cambé, Rádio Norte e Brasil Sul em Londrina, além da Nova Geração. “Na Metropolitana obtive o diploma de locutor e na Nova Geração apresentei o programa A voz de Tonil e Tonel”, recorda.                                                                    

Com vários aparelhos de som em casa, como amplificadores e microfones, ele ensaia no estúdio caseiro e os mesmos são transmitidos por alto falantes localizados em cima do imóvel, na Vila Frederico. Outra atividade é a gravação do trabalho de outros artistas. “Ao gravarmos, o artista chega às 4 horas da manhã. Tomamos um café bem forte, entramos no estúdio e gravamos cerca de doze músicas, tocadas diretas e sem usar computador. Por ser artesanal é diferente da gravadora profissional, onde eles preparam os músicos. No meu caso, sou um artista popular”, diz.                                                       
Se engana quem acha que Ermiliano Domingues é apenas um artista. Durante a vida conciliou o palco com o trabalho de Operador de Trator de Esteira na Codapar, o antigo Café do Paraná e atual Secretaria de Agricultura do Paraná. Com a vida de aposentado, se dedica a reforma de um caminhão antigo. “Tenho saudade do circo e do cinema. Nestes locais o povo nos abraçava e como violeiros éramos a autêntica figura do caipira, expressa no palco. Vou levar a vida cantando”, finaliza Tonil, que representa e preserva a história do Norte do Paraná, ao ser o caipira que tem na música de raiz, temas de boiadeiro, café, agricultor e a roça.