domingo, 4 de janeiro de 2009

A atualidade do conceito de Comunicação em Paulo Freire

Nos anos 70, Paulo Freire era muito estudado fora do Brasil em outras áreas além da Educação: filosofia, serviço social, teologia, lingüística. Com base no trabalho que desenvolveu como consultor internacional das Nações Unidas em projetos de reforma agrária e extensão rural no Chile na década de 1960, Freire identificou a necessidade de repensar a noção de comunicação. Não a comunicação instrumental, transmissiva, mas aquela no sentido de ter em comum, compartilhar, estar conectado pela mesma teia simbólica construtora de sentido, em um contexto histórico desigual e contraditório.
Neste inicio do século, a emergência de novas e revolucionarias tecnológicas interativas de comunicação obriga a uma rediscussão conceitual, cada vez mais interligada à cultura. Esse, aliás, é um aspecto fundamental que ainda não foi absorvido em sua devida proporção pelos teóricos do campo intelectual das comunicações.
Uma das tendências que pode ser identificada como característica do novo cenário tecnológico, é a interatividade ou a possibilidade de interação simultânea entre emissor e receptor. Otimistas chegam a chamar as sociedades deste inicio de século XXI de sociedades interativas, muito diversas da sociedade de massas, idealizada no século XIX e que serviu de referencia aos modelos teóricos da Manipulação e Persuasão.

Pequeno Histórico

A única oportunidade que Freire discutiu conceitualmente a noção de comunicação foi num trabalho escrito em 1968 para o Instituto de capacitacion e Investigación em Reforma Agrária do Chile.
O ensaio, que tem o título Extensão ou comunicação?, Constitui uma crítica radical da tradição “difusionista” norte americana, que na época tinha grande penetração na América Latina, submetida a rubrica geral de “comunicação e desenvolvimento”
Contrapondo a comunicação de transmissão, Freire argumenta que comunicação é a “co-participação de Sujeitos no ato de conhecer” e que a extensão implica transmissão, transferência, invasão. Freire não atribui a palavra extensão o mesmo sentido neutro que normalmente lhe é atribuído nos modelos behavioristas da Manipulação e da Persuasão. Na verdade, ele encara a transmissão como algo que impede o conhecimento.
Na obra de Freire, está presente o conceito subjacente de comunicação, que tem claras implicações não só para a critica da tradição ”difusionista” como também para os dos demais modelos de estudo das comunicações que tem sua origem na tradição behaviorista americana. Na década de 1960, Freire fez uma ligeira referencia positiva à mídia existente em sua época como sendo portadora de “influencia renovadoras”

A redescoberta democrática do trabalho

A redescoberta democrática do trabalho é a condição sem a qual não é possível, a reconstrução da economia como forma de sociabilidade democrática. Portanto, a dessocialização da economia deu-se pela redução do trabalho a favor de produção. Porém, hoje é problemático que o trabalho possa sustentar a cidadania.
Para que se redescubra a cidadania, é imperativo que se realizem as seguintes condições: Em primeiro lugar, o trabalho deve ser democraticamente partilhado. Ou seja, o trabalho humano não incide sobre uma natureza inerte; o trabalho humano confronta-se permanentemente com o trabalho da natureza e compete com ela. A concorrência é desleal sempre que o trabalho humano é garantido à custa da destruição do trabalho da natureza. No novo contrato social, o trabalho humano tem de saber partilhar a atividade criadora do mundo com o trabalho da natureza.
A segunda partilha do trabalho é interna ao trabalho humano. Existe a necessidade de redistribuir, em nível global, o estoque de trabalho disponível. Isto pode ser feito através da redução do horário de trabalho. Outra forma, é a iniciativa que diz respeito à exigência de padrões mínimos de qualidade da relação salarial para que os produtos possam circular livremente no mercado mundial.
Para não redundar em protecionismo discriminatório, à adoção de padrões laboriais mínimos tem de ser tomada de par com duas iniciativas: a redução do horário de trabalho, já referido, e a flexibilização das leis de imigração com vista à progressiva desnacionalização da cidadania.
A segunda condição da redescoberta do trabalho, reside no reconhecimento do polimorfismo do trabalho. Este reconhecimento dos diferentes tipos de trabalho só é democrático na medida que se cria em cada um deles um patamar mínimo de inclusão. Ou seja, o polimorfismo do trabalho só é aceitável na medida em que o trabalho permanece como critério de inclusão.
O reconhecimento do polimorfismo do trabalho, longe de ser um exercício democrático, configura como um ato de fascismo contratual. A segunda forma assumida pelo reconhecimento democrático do trabalho, reside na promoção de qualificação profissional, qualquer que seja o tipo e a duração do trabalho.
A terceira condição da redescoberta democrática do trabalho é a separação entre trabalho produtivo e economia real, de um lado,e capitalismo financeiro ou economia de cassino de outro.
A regulação ao capital financeiro é tão difícil quanto urgente. Uma proposta apresentada, é a adoção do imposto Tobin. Trata-se de um imposto global, sugerido pelo economista James Tobin, Prêmio Nobel de Economia, que deveria incidir, com uma taxa de apenas 0,5%, sobre as transações nos mercados de cambio.
O imposto Tobin, visa fundamentalmente a desacelerar o espaço-tempo das transações de cambio, submetendo o marginalmente a um espaço – tempo estatal que permita aos Estados reconquistar algum poder de regulação macroeconômica e defender-se das especulações dirigidas contra as moedas nacionais.
Segundo Tobin, as receitas deste imposto, recolhidas no nível nacional pelos Estados, seriam canalizadas para um fundo central – que Tobin considerava poder ser controlado pelo Banco Mundial ou FMI – e daí seriam redistribuídas, cabendo 85% aos países centrais, que os repassariam aos organismos de operações de paz, de luta contra a pobreza, contra a degradação do meio ambiente, etc., sendo os restantes 15% atribuídos aos países em desenvolvimento para uso em benefício próprio.
Outra medida para “civilizar” os mercados financeiros será o perdão das dívidas externa dos países mais pobres. Estas dívidas, têm contribuído grandemente para a exaustão dos recursos naturais, o desinvestimento nos programas sociais e nos programas de desenvolvimento econômico, como infra-estruturas, formação de capital humano, aquisição de tecnologia etc., na medida em que todos os recursos financeiros são canalizados para o pagamento da dívida e dos juros, e para a retração do investimento, interno ou externo.
A quarta e última condição da redescoberta do trabalho, consiste na reinvenção do movimento sindical.
O movimento sindical terá de se reestruturar profundamente, de modo a apropriar-se da escala local e da escala transnacional pelo menos com a mesma eficácia com que no passado se apropriou da escala nacional.
Ao movimento sindical cabe também revalorizar e reinventar a tradição solidarista e reconstruir suas políticas de antagonismo social.
É também necessário reconstruir as políticas de antagonismo social, de modo a conferir ao sindicalismo um novo papel na sociedade, um sindicalismo mais político, menos setorial e mais solidário, um sindicalismo de mensagem integrada e alternativa civilizacional, onde tudo liga com tudo: trabalho e meio ambiente; trabalho e sistema educativo; trabalho e feminismo; trabalho e necessidades sociais e culturais de ordem coletiva; trabalho e listado-providencia; trabalho e terceira idade, etc.

Que a paz esteja com todos



Hoje acordei de manhã e li no jornal que mais uma pessoa foi assassinada.
Foi a tiros, naquela rua movimentada onde as prostitutas se vendem por cinco reais,
e os viciados se drogam dia e noite.
Isso já é normal e tornou-se uma triste rotina.

Estou acostumado com bombas, tiros, sangue e destruição.
Ligo a TV e vejo guerras, mortos, feridos, inocentes perturbados e vidas despedaçadas.
Para os poderosos, a vida vale menos que ideologias, capitalismo e religião.

Ando preocupado.
Na rua posso levar um tiro, uma facada, ser assaltado ou atropelado.
Tenho medo de ataques aéreos, ameaças nucleares, bombas químicas e de hidrogênio.

Ainda ontem vi profetas do apocalipse, terroristas e agentes do medo.
Não tenho paz.
Não tenho sossego.
Aonde vou ouço falar de AIDS, Newcastle, aftosa, dengue, febre amarela, ebola e fome.

A violência é tão grande que os ataques mortíferos, as emboscadas, os estupros, o tráfico, os homicídios, os latrocínios e a prostituição são lugares comuns e triviais.
Tenho medo da inflação, da instabilidade da moeda, da alta do petróleo e do desemprego.

Não quero morrer violentamente através de pistolas, revólveres, granada ou facão.
Em tiroteio de bala perdida entre polícia e ladrão.
Esse é o horror!
Quando o medo é maior que a vida, isso é horror!



Assim também é a vida para Mohamed.
Ele chora porque um dia foi feliz, mas não sabia.
Lembra de sua casa destruída, pelas setas noturnas,
que voavam no dia.

O aviso veio do céu.
Parecia profecia.
Esta terra não lhe pertence.
Eram anúncios eloqüentes.

Abraão é o pai do povo,
Jesus morreu para libertá-lo,
Maomé ensinou-o o Alcorão.

Mohamed não sabia que Canaã, Gaza e Palestina padeceriam.
Ele é inocente e tem medo da destruição de seu país.
Onde muitos libaneses são mortos e feridos sem nada poder fazer.

Pobre Mohamed, pobre Líbano!
Vêem suas escolas, pontes, estradas e igrejas destruídas,
por ações violentas de terroristas impiedosos.
A eles não interessam à nacionalidade, idade ou profissão.







sábado, 3 de janeiro de 2009

Latuff

Esse cara é um cartunista carioca que recentemente esteve na UEL. Pude assistir a sua palestra e vi seus desenhos engajados politicamente. Suas críticas têm fundamento e questionam as guerras e matanças mundo afora, como o exemplo de Israel, que bombardeia incessantemente Gaza.















"A luta já não se baseia no arco e flecha, mas os direitos são conquistados pela justiça"

As dificuldades para os indígenas arrumarem emprego na cidade são enormes. As barreiras são vistas na escolaridade e até mesmo no desemprego que atinge a todos. Mas, é importante ressaltar que o preconceito impera e que apenas uma indicação pode resolver este problema. "O índio deve preservar sua culturas através da linguagem e do conhecer. Além disso, deve saber lidar com a cultura não índia para que possa se sociabilizar. O que não pode acontecer, é o índio deixar seu idioma e cultura para se tornar um não índio. Isso é errado. Nem que seja um índio doutor ou formado pela universidade. Ele é índio da mesma forma. Não há como tirar, de qualquer nação ou raça, a sua cultura. Tudo deve ser preservado e dar o digno respeito. Nosso conhecimento é único e deve ser preservado. Como o caso da miha mãe. Ela contou que a luta do antepassado, no tempo dos meus avós e dos bisavós, era resolvida na flecha. Hoje em dia, na era que vivemos, as lutas, as guerras e são resolvidas na caneta e burocraticamente na justiça comum", finaliza Renato.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

"O primeiro brasileiro foi um índio"

O índio Caingang Renato Crine Caiene diz que o conhecimento dos índios do Apucaraninha se baseia numa história presente e dos antepassados. "O que viveu nossos antepassados, é preservado culturalmente. Porém a situação no presente não é igual ao passado como a abundância de caça e de peixes nos rios. As terras foram destruídas e as aldeias do Paraná diminuiram gradativamente. Sabe-se que existe a preservação, mas ela é pouca". Na opinião de Renato, a cultura, o conhecimento e os saberes aos poucos foram retirados pelo não índio. Cabe aos índios dizer e ensinar aos filhos que eles devem se preocupar mais com a preservação do que ainda resta.
"o que conhecemos, passamos aos filhos. No fundo, se existe algum conhecimento esquecido, tentamos resgatá-lo e preservá-lo. Nossa cultura ninguém pode tirar da gente, um direito e cada um possui os seus".
Calene diz que a Reserva do Apucaraninha abriga em torno de 1500 habitantes. São índios que trabalham na agricultura e se preocupam com a saúde e a educação. "Quando estes fatores não estão bons (saúde e educação), procuramos melhorar. Hoje o índio é cidadão e tem direitos iguais, como todo cidadão. Cabe a nós, indígenas, a busca pelos seus direitos e principalmente a liderança. Sou de uma associação e busco os direitos da minha comunidade. Isso resplandece em confiança. Um exemplo é o aumento da população, que torna-se uma preocupação constante. A terra é pequena e daqui alguns anos não haverá espaço suficiente para agricultura e muito menos para a sobrevivência. Por consequência, precisamos de mais terras e da demarcação delas.
Outro ponto é a agricultura, que precisa melhorar. Isso se reflete na alimentação, que deve ser considerada pelo governo estadual, federal e com a ajuda dos depútados. Hoje, no meu conhecimento, o índio é cidadão e ele tem direitos porque elege políticos. É um eleitor que elege prefeito, vereador, deputado estadual, federal, presidente da república e senador. Então, com toda esta responsabilidade, está na hora de aparecer os direitos e a concessão dos mesmos. Tanto no social, como na cultura. O índio é cidadão e ele conhece sua cultura e a cultura não índia. Todos tem direitos iguais.
Caiene, que nasceu no Apucaraninha, tem a mãe como índia da etnia caingang e seu pai, que vem de Ibiama (Santa Catarina), é um índio Xoclén. Para ele, ser Caingang e Xoclén é um privilégio, pois pentence a duas raças distintas. "O índio é da terra e o Brasil é da terra. Como Pedro Álvares Cabral, isso está na história. Quando os portugueses chegaram aqui, foi avistado primeiro os índios. Só que quem descobriu o Brasil foi Pedro Álvares Cabral, que nem índio era. Mas na verdade, quem vivia aqui a milhares de anos eram os índios. Se for para dizer quem foi o primeiro brasileiro, pode-se considerar que foi um índio. Mas isso não é considerado como se têm visto. Infelizmente o índio é visto como um ser que vive no mato. Mas isso não é verdade. Acho que não. Primeiramente ele é um brasileiro, mas sem direitos, garantias e igualdades. Sou índio, mas sou um ser humano. No Brasil o índio sofre muitos preconceitos. Isso deve acabar e deve-se criar uma visão de que ele possui o conhecimento e preserva uma cultura milenar como o gosto pelo trabalho com artesanato ou na agricultura. O preconceito é visto quando o índio que faz artesanato vêm a cidade para negociar seu trabalho. Isso é uma barreira a ser enfrentada. Muitos índios são contra o preconceito. Pela sua natureza, ele vive livre, da mesmo forma como nas aldeias. O preconceito é tamanho, que muitos chamam a polícia, mesmo quando não se está fazendo nada de errado, como roubo. Isso é puro preconceito. Esta situação deve parar. O preconceito também é visto quando defendo meus direitos. Até mesmo na política sofremos preconceito, quando dizem que os índios tem terra, mas não fazem nada. Algumas reservas tem muita terra boa para o plantio de soja e trigo, mas, o que falta para começar a trabalhar? Faltam recursos e principalmente alimentação para fortalecer os trabalhadores. Não tem semente e as vezes se ela existe, não há verbas para se alimentar, trabalhar e comer. Qualqueer serviço que você faça e não tiver recursos para se alimentar, não prospera. Tem gente que não sabe, mas a barriga tamém dói com a fome. Como disse anteriormente, a desmatação acabou com a caça. Tinhamos fartura, pinheiros e pinho, carne assada e peixes. Mas hoje não existe mais. A devastação tomou conta. O que resta nas aldeias está sendo preservado.
O Governo do Estado, junto com o federal e as prefeituras, poderiam fazer um projeto da melhoria da qualidade de vida das aldeias. Um projeto bom para que a comunidade tenha, ou eles mesmos trabalhem, produzam a comida para consumo. Temos essa idéia, porque senão vira aquela história: os índios não trabalham, estão passando fome e vivem na miséria. Ví uma reportagem na televisão que me preocupa. Os índios têm terra, mas não tem condições de cultiva-lá. Acho que está na hora da gente ver isso.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

E como vivem os índios da nossa região?

O estagiário de Ciências Sociais, Adriano Francisco da Cruz, atua na Secretaria de Ação Social de Londrina e trabalha no projeto que atende as necessidades das populações indígenas do Apucaraninha. Para ele, trabalhar com os Caingangs é uma ótima experiência devido a disciplina de Antropologia, que estuda a questão teórica dos indígenas. "Estudar a teoria e trabalhos etnográficos sobre uma certa comunidade indígena é uma coisa. Quando você começa a conviver com eles pessoalmente, seu conhecimento se enriquesse cada vez mais através da junção teórica e prática. O que se observa é a relação e contato com os não índios e também que certas teorias clássicas indígenas (comparadas com o contato), mudanças e principalmente a questão da resistência. Aparente, eles dizem que vão "deixando de ser índio", porém, cada vez mais eles resistem. A resistência é vista no fato da cultura ser algo dinâmico e nessa dinâmica, cada vez mais eles recriam formas tradicionais no presente".
Questionado como o Caingang faz isso, o estudante respondeu:
"Por exemplo, um dos grandes fatores que se vê presente é a língua, pois são bilingues, porém a preferência é falar o Caingang. Coordeno uma escola de futebol com a intenção de prevenir o alcoolismo, situação grave nas terras indígenas. Quando tem campeonato e jogamos fora da reserva, a torcida se comunica com os jogadores em caingang. Eles não falam português. Isso é algo forte que se vê presente e que tem valor antropológico. Numa analise complexa, dizer que o futebol prejudica a cultura dele é errado, pois ele reforça cada vez mais a tendência de serem caingangs".
Adriano afirma que hoje em dia a situação dos indios é muito crítica devido a falta de recursos naturais que existiam no passado. Por consequencia, a situação de miséria é comum. "Muitos querem ter uma televisão ou outro bom material. No entanto não existe o apego igual a nós. O que existe na verdade é a relação de proximidade junto as famílias e o fato de não negarem alimento, mesmo sendo escassa. Pela pouca alimentação que eles tem e por mais miseráveis que sejam, sempre que houver uma refeição, o índio convida outra pessoa de fora. Isso mostra que eles compartilham e mantém os laços familiares".
O estudante diz que a sobrevivência dos índíos do Apucaraninha é de subsist~encia e se baseia na agricultura, além de alguns serem pensionistas, aposentados e venderem artesanatos. Ele confirma que a renda bruta vêm mesmo da venda de artesanato, que é feita em Londrina e região. "Alguns poucos são empregados pela Funai, outros pela FUNASA, mas até esse mesmo passa apurado. Mesmo que ele seja funcionário da FUNAI e ganhe bem, sua família é numerosa, sendo entre dez a quinze pessoas para sustentar". isso mostra que existe estímulos para o crescimento da população indígena. Há menos de uma décvada, haviam 750 caingang. Hoje são mais de 1500 caingangs no Apucaraninha, sendo que a maioria são crianças. Elas (as crianças) através da Secretaria de Ação Social, FUNASA, Funai, Secretaria da Agricultura, são cuidadas pelo Programa da Saúde Indígena. "A escola, na reserva, é do índio, onde a educação é orientada por estatuto e especifica conforme a cultura Caingang. Muitos professores são índios, duas professoras são não índias e a educação é bilíngüe. A questão da saúde tem acompanhamento no Posto de Saúde dentro da reserva e durante a semana, vários médicos estão presentes, além de dentista, enfermeira e auxiliares de enfermagem. Existem os agentes indígenas que acompanham as crianças", diz.
Mesmo com todo esse cuidado, existe o problema do alcolismmo, que é tratado com oficinas nas escolas, tanto para os professores e alunos através de cartilhas, folders e palestras sobre alcoolismo.
Ciente de que seu trabalho ajuda na preservação da cultura indígena, Adriano diz que a politica da Funai é precária quanto aos indígenas e cabe a prefeitura de Londrina, muitos trabalhos. "Comparada com outras reservas, o Apucaraninha é previlegiada. Se não fosse alguns projetos, como o envio de cesta básica, ajuda para fazer documento, acolhimento e despesas com água, luz, manutenção, telefone e outras coisas, a situação estaria mais precária. O dever de tudo isso é da Funai, porque ela tem a jurisdição sobre os índios. A política indianista tem muito a desejar e questões que estão no estatudo não são cumpridos. Em relação a política indianista, eles (os indios) já perderam muito, mas aos poucos tentam reconquistar seus direitos. Como a demarcação de terras. Isso é um dos primeiros passos, pois eles já perderam muitas."

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Como os indígenas vêem sua cultura?

Aparecido Marcolino, Cacique Caingáng da Reserva Indígena do Apucaraninha, diz que a cultura de sua etnia perdeu muitos valores devido a inserção dos indígenas na sociedade capitalista e por estarem civilizados.

"Hoje trabalhamos com a agricultura. Na cultura indígena, o nativo caiu bastante porque chegou muita gente da sociedade não índia e se misturaram. Mas, existem alguns que tentam resgatar os antigos valores. Sou um deles e coordeno um grupo que reconquistou muito do que se perdeu com a ruptura das tradições."

Para Marcolino, ser caingang é o mesmo que ser uma tribo. O significado desta palavra é muito valioso para os índios.

"Nossa tribo é a dos Índios Coroados devido o corte de cabelo, mas para nós, caingang é o sentido da etnia na linguagem indígena. Se vejo um Guarani, na minha linguagem falo que aquele é Caingang, o mesmo que índio. Tenho muito orgulho da minha origem e dos meus ancestrais. Não tenho vergonha de ser alguém. Tenho orgulho de ser índio."

Essa afirmação torna-se mais contundente com o resgate da cultura, que está presente na oralidade e é repassado aos mais jovens, que aprendem o que se deve fazer em cada situação. "Passamos para as crianças também. Esse é um processo de afirmação da cultura, que inclue a apresentação das crianças indígenas. Apesar da interação com o mundo exterior, elas se comunicam com maior facilidade. Isso é bom", comenta o cacique.

Em relação a agricultura, ele afirma que ela mudou muito, sendo obrigados a incorporam as novas tecnologias, modos de plantio e espécies que não fazem parte de seu cotidiano. "A fartura que existia há anos atrás não exitem mais, como a caça e a pesca, que aos poucos se esvai. O que restou é a exploração das terras pela agricultura com o plantio de arroz, feijão, mandioca e milho. A soja ainda não faz parte da nossa cultura, porém estamos aprendendo com as novas tecnologias. Temos que nos adaptar para aumentar a produção".

Questionado sobre a relação dos indígenas com a soja, Marcolino disse que ela é uma cultura que não está incorporada, mas que pretendem cultivá-la. "Temos pessoas das aldeias que estão na universidade. Eles estudam para aprender. Quem sabe daqui a alguns anos chegamos lá".

Como era de se esperar, Marcolino abordou uma questão muito importante: os conflitos de terras. Em relação ao tratamento desta questão, ele disse:

"Quando alguém me faz uma pergunta dessa fico pensando. Pelas leis, fizeram um decreto, em 1775, que somos índios. Agora estão sendo esses invasores favoráveis a esse decreto de 1775. Vamos supor que um índio invada essas terras. Ele está invadindo o que o dele, mas só que o indio não faz esse tipo de coisa. Estamos tentando descobrir o que já foi perdido e o que perdemos. Quem sabe daqui alguns anos, vamos resgatar o que nos foi sequestrado. Hoje os índios não são iguais como os de antigamente. Muitos frequentam a universidade e entraram na política. Conhecemos as leis e lutamos pelo nosso povo", finaliza.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Bandeirantes no Guairá

O assédio dos bandeirantes, que passou a se intensificar a partir de 1628, tinha como objetivo capturar os índios para vendê-los como escravos a donos de canaviais e de engenhos de açúcar, pois a mão-de-obra escrava passou a ser mais escassa e mais valiosa, em vista do fechamento do porto de embarque de negros em Angola e do risco dos navios negreiros sofrerem ataques da pirataria oceânica.
Em 1580 os bandeirantes (Capitão Jerônimo Leitão) já capturavam índios na região para comercializá-los, investida que se repetiu em 1599, em 1602 (Nicolau Barreto), em 1606 (Diogo Quadros e Manoel Preto), em 1607 (Belchior Dias Carneiro), em 1610 (Clemente Alvares, Cristóvão Aguiar e Bras Gonçalves), em 1611 (Pedro Vaz de Barros), em 1612 (Sebastião Preto), em 1615 (Lázaro Costa).
Em 18/09/1628, saiu de São Paulo a maior de todas as bandeiras, com destino o Guairá, composta por 2.000 índios tupis, 900 mamelucos e 69 paulista, tendo no comando o mestre-de-campo Manoel Preto e como imediato Antônio Raposo Tavares, auxiliados por Antônio Pedro Brás Leme, Pedro Vaz de Barros, Salvador Pires de Medeiros e André Fernandes. Também acompanharam a bandeira padres seculares.
Em janeiro de 1629, a bandeira chegou na região e atacou sucessivamente às reduções San Miguel, San Antonio, Jesus Maria, Encarnacion, San Javier e San Jose. Nessa investida foram mortos em torno de 15 mil índios e escravizados perto de 60 mil, para serem vendidos em São Paulo e em capitanias do norte. Com isso a oferta de mão-de-obra indígina foi tanta, que o preço de cada índio no mercado baixou de 100$000 para 20$000.
Os índios, que não foram aprisionados ou mortos nessa investida, debandaram pelo sertão ou atravessaram o rio Paraná, espalhando-se pela região onde hoje se localizam o Mato Grosso e o Paraguai.
Depois desses ataques, por recomendação do provincial Padre Francisco Vasques Trujillo, os jesuítas reuniram-se em conselho e resolveram abandonar o Guairá, sendo atribuído aos padres Montoya, Dias Tanho, Simão Maceta e Pedro Álvarez a tarefa de dirigir o êxodo. Além desses padres, haviam outros três que auxiliaram na transmigração.
Dos índios que tinham debandado, 7.000 voltaram e se incorporam aos outros 5.000 que viviam nas reduções de Loreto e San Inácio, ainda não atacadas pelos bandeirantes, somando 12.000 almas, prontas para a mudança.
Em pouco tempo 700 jangadas e numerosas canoas estavam às margens do Paranapanema e puseram-se a enfrentar as inúmeras cachoeiras e tantos outros perigos, inicialmente no Paranapama e depois do rio Paraná (com portugueses paulistas ao seu encalço e espanhóis atacando pelas margens).
Quando chegaram nas cataratas de Guairá (Sete Quedas - Salto Grande), passaram também a andar a pé. Nessa altura já estavam quase sem comida e com tantas outras privações.
A fadiga, os obstáculos cada vez maiores, as doenças, o sofrimento, as pessoas idosas, os acidentes, passaram a provocar um desalento muito grande em todos.

Sobreveio a fome, com todos os seus horrores, pois nada encontravam ou tinham para satisfazê-la. Então, passaram a comer as sementes que transportavam, os brotos das que germinavam, couro de vaca já seco, cobras, sapos e tudo mais que encontravam e que servia de alimento.
A desesperança tomou conta de todos e para piorar uma epidemia baixou sobre todos os retirantes, matando 2.000 mil índios, depois de tomarem o sacramento. Em vista disso, 6.000 debandaram, sobrando apenas 4.000 dos que tinham iniciado a viagem.
A situação só se amenizou quando encontraram, nas margens do rio que navegavam, uns aipos que cresciam até um metro de altura, de gosto salgado, mas comestíveis. Esses aipos, conforme iam sendo arrancados, logo rebrotavam, saciando provisoriamente a fome de todos.
Nessa altura novos recursos passaram a chegar, pois os padres do baixo Paraná lhes socorreram com gado bovino, que foi colocadoà disposição dos famintos.
Com a chegada de nova estação de plantio, os índios passaram a cultivar a terra e garantir futuras colheitas de milho, feijão, mandioca, batata e algodão.
Na época os padres também conseguiram arregimentar um rebanho com 1.800 ovelhas, para produção de lã, além de plantéis de porcos, patos, galinhas e pombos que se formaram, voltando a abundância para esse povo que sofrera tantas privações.
Era o ano de 1631. Um templo foi erigido, grande e belo, e a vida dos antigos cristãos do Guairá voltava ao normal, agora nas margens do rio Paraná, onde hoje é a Argentina, que recebeu as reduções com os mesmos nomes de San Inacio Mini e Loreto.
Em meados do século XVII, já não havia mais espanhóis no Guairá. A ocupação que durara cerca de um século, desde 1542, quando o Adelantado Don Alvar Nuñes Cabeza de Vaca, após desembarcar na costa catarinense, percorreu rios e planaltos paranaense, utilizando-se principalmente do caminho do Peabiru, com duzentos homens, rumo a Assunção, até o fim dos anos 1640, quando os bandeirantes acabaram de destruir os povoados espanhóis que lá permaneciam - Villa Rica e Ciudad Real del Guairá, época que coincide com a ocupação efetiva do litoral paranaense pelos portugueses.
Da localização das reduções e povoados do Guairá hoje pouco se sabe. Graças aos trabalhos de pesquisadores e arqueólogos do Museu Paranaense e da Universidade Federal do Paraná, conhece-se a localização da Villa Rica del Espiritu Santo e dos povoados missioneiros de Nossa Senhora de Loreto, San Inácio Mini e San Pablo, dos quais ainda existem vestígios.

Éramos para ser Paraguaios?


Essa parte da história do Paraná não encontramos nos livros brasileiros. Porque será? Onde hoje vivemos, na região de Londrina, estava localizada a região do Guairá. Sua delimitações eram os rios Iguaçu (ao sul), Paraná (oeste), Paranapanema (norte) e o Tibagi (leste).
Seu nome teve origem num poderoso cacique guarani que dominava todo o território entre o rio Iguaçu e o Paranapanema, incluíndo o sul do Mato Grosso do Sul. Guairacá, como era conhecido, enfrentou e derrotou os espanhóis (Irala, Ñuflo Chavez, Alonso Riquielme, Garay, Hernandarias) nos séculos XVI e XVII (o que evidencia a possibilidade de ter existido mais de um cacique com esse nome), a quem é atribuída a frase "Co ivi oguerocó yara", que em guarani significa "Esta terra tem dono", duzentos anos antes da morte de Sepé Tiaraju.

Em 1554, por determinação de Domingos Martinez Irala, Governador do Paraguai, seu comandado, Garcia Rodrigues de Vergara, acompanhado de 60 espanhóis, fundou o primeiro povoado no Guairá, que foi denominado Ontiveros (mesmo nome da cidade natal de Irala, localizada na Espanha), uma légua acima dos saltos de Sete Quedas (a grande cachoeira), na margem esquerda do Rio Paraná, que logo seria completamente abandonado. Em 1556, Irala confiou ao capitão Ruy Diaz Melgarejo a fundação de outro vilarejo naquela região, a quem foi dado o nome de Ciudad Real del Guairá, instalado na foz do rio Piquiri, no rio Paraná. Seus primeiros habitantes somaram perto de cem espanhóis, originados de Assunção e Ontiveros, que, com isso, desapareceu.

Diferentemente do que ocorreu com Ontiveros, a Ciudad Real progrediu. Ali foi incentivado o plantio de gêneros alimentícios diversificados, a criação de animais e a exploração da erva-mate nativa, que chegou a ser comercializada anos mais tarde com algumas reduções jesuíticas do Rio Grande do Sul.

A Leste de Ciudad Real, em fevereiro de 1570, o capitão Melgarejo decidiu fundar uma nova comunidade, num lugar que imaginava existir ouro, porém próximo do povoado o único metal encontrado foi o ferro. Acompanhado de 40 homens e 53 cavalos, há 60 léguas da Ciudad Real, em terras do cacique Coraciberá, estabeleceu Villa Rica del Espiritu Santo. Lá mandou erigir uma cruz e uma igreja, ordenando a construção de uma fortaleza com cerca de 70 metros de comprimento por 10 de largura. Depois de traçar a estrutura urbana do povoado, o capitão repartiu entre os espanhóis terrenos para construção de casas dentro da vila e chácaras.
Em 1592, depois de mudar pelo menos três vezes de lugar, houve a transferência da Villa Rica, por ordem do capitão Guzman, para junto do rio Corumbataí, no Ivaí, onde se fixou.
A evangelização na região iniciou em 1588. O jesuíta Manuel Ortega, acompanhado por Tomas Fields, durante 16 anos, com algumas interrupções, atuou na Ciudad Real del Guaira, na Villa Rica, na bacia do rio Ivai até Santiago del Xerez, no Itatim. A primeira carta ânua do Padre Diogo de Torres, de 17/05/1609, registra que o Padre Ortega, no tempo em que andou pela região, batizou 22.000 índios, sendo considerado o primeiro evangelizador do Guairá.
Em fim de 1603 ou no início de 1604, o Padre Ortega foi chamado pela Inquisição de Lima e, ali chegando, foi preso em cárcere secreto, vítima de acusação feita em Villa Rica, a de violar o sigilo da confissão. Ortega somente foi liberado em 1606, quando o delator, um notário público daquela comunidade, arrependido, assumiu que o caluniara. Após esse período de prisão, ao Padre Ortega foi confiada uma difícil missão, de pregar para os índios Chiriguanos, no distrito de Tarija, no Peru, os que mais resistiam à envagilização e indomáveis às armas espanholas. Em 1622, com 42 anos de trabalho na Companhia, o Padre Manoel Ortega faleceu no Colégio de Chuquisaca.

A Província do Paraguai foi fundada em 1607 e, depois de 5 anos de ausência no Guairá, foi em fins de 1609, a pedido do Governador Hernando Arias de Saavedra, dirigido ao Padre Diogo de Torres, Provincial da Companhia de Jesus, que os Jesuítas voltaram para a região. Os Padres Joseph Cataldino e Simão Maceta para lá se dirigiram em 08/12/1609 e reiniciaram as catequeses nos povoados de Ciudad Real e Villa Rica Del Spiritu Santo e juntos aos índios naquela extensa região.

Em novembro de 1610, os jesuítas Cataldino e Maceta chegaram às margens do rio Paranapanema, por intermédio do sertão de Apuracarana, navegando pelo rio Pirapó, até a sua foz, e no encontro desses rios ergueram uma cruz e uma pequena igreja, em homenagem à Nossa Senhora de Loreto (área rural do atual município de Itaguajé-PR).

Após alguns dias de permanência no novo local, perceberam que nos arredores havia 25 aldeias indígenas, com cerca de 2.000 índios, com os quais poderiam estabelecer uma redução. A capela recém construída foi transformada em embrião de um novo povoado, que se tornou a capital das missões do Guairá.

Os Padres Cataldino e Maceta, ao tomarem conhecimento da existência de mais índios na região, seguiram o curso do Paranapanema e fundaram, onze quilômetros rio acima, a Redução de San Inácio Mini (Santo Inácio Menor), em 1611, na aldeia Ipaucumbu, na foz do rio denominado Santo Inácio, atual área rural do município de Santo Inácio/PR (essa redução abrigou o maior número de indígenas de todas as construídas no Guairá. Em 1620 contava com 8.000 almas).

Em princípios de 1612 se juntaram aos dois, os Padres Martin Javier Urtazu e Antônio Ruiz de Montoya, este iria se tornar, em poucos anos, o grande motivador e construtor das Reduções do Guairá, das quais, em 1620, foi nomeado Superior.

A pobreza e a falta de recursos materiais, principalmente de comida, dificultava muito a prática reducional. Inúmeros são os relatos sobre a adaptação que os jesuítas tiveram de fazer em relação à falta de alimentos, que tiveram que se habituar a comer o que os índios lhe davam (farinha de mandioca, batatas doce, bananas, abóboras e eventualmente carne de pequenas caças que recebiam). Quando da chegada dos padres Montoya e Martin, a miséria era tanta que Montoya registrou que não chegava a distinguir o remendo do pano original da batina dos jesuítas Cataldino e Maceta. Foram essas dificuldades que motivaram a morte do Padre Martin, de fome.

Com a morte desse Jesuíta, não foi possível aos padres restantes ampliar a área de atividade, que concentraram seus esforços no desenvolvimento e funcionamento de Loreto e San Ignacio.

Somente a partir do momento em que o Padre Montoya assumiu a direção dos trabalhos no Guairá, em 1622, é que os jesuítas voltaram a expandir suas catequeses. Nessa época atuavam na região os Padres Montoya, como Superior, José Cataldino, Simão Maceta, Juan Vaseo, Diego Salazar, Francisco de Ortega, Francisco Diaz Taño e Cristobal de Mendoza. Em seis anos, sob a liderança do novo Superior, foram fundadas mais onze povos sonsolidados (totalizando 13, que somados à redução de Santa Maria Maior, no rio Iguaçú, chegaram a 14, no Guairá):

San Francisco Javier, fundada em 1622, pelos Padres Antônio de Montoya e Simão Maceta, nas nascentes rio Tibagi (nascente do Tibaxiba, na aldeia Ibitirembatá, do cacique Ybyty, distante menos de 30 léguas do povoado de Villa Rica, possivelmente entre as atuais cidades de Santa Cecília do Pavão, Irerê e Londrina. Na redução ficou o Padre Maceta, enquanto Montoya continuou avançando.

San Jose, fundada em 1625, pelo Padre Antônio de Montoya, na margem esquerda do Tibagi, na aldeia Tucuti, dos índios Camperos, na passagem para a Redução de São Francisco Javier, possivelmente nas imediações dos atuais municípios de Bela Vista do Paraíso e Sertanópolis. Esse povoado foi fundado com a intenção de abrir um novo caminho que facilitasse a interligação e fosse um ponto de parada entre San Ignacio e San Francisco Xavier. Sobre ela Montoya escreveu "buscamos um posto, o estabelecemos por gosto do cacique principal junto a um riacho que desemboca no Tibagi, pelo qual será fácil a comunicação com a Redução de San Francisco Javier". Esse lugar quase foi abandonado, em vista da grande fome que o assolou. O Padre Francisco Ortega, cura da Redução, chegou a apelar para o Provincial para resolver esse problema.

Encarnación, fundada em 1625, pelo Padre Antônio de Montoya, na margem esquerda do Tibagi, na aldeia Ibatingui (ou Nhutingui), próxima do atual município de Telêmaco Borba, num trecho de solo fértil, rodeado por Araucárias, regado por um rio cristalino, que possibilitou a exploração de uma ampla variedade de hortaliças e milho. A fertilidade do local possibilitou que os jesuítas formassem um grande vinhedo, com três mil mudas. A redução foi formada com índios denominados de cabelludos, camperos ou coroados.

San Miguel, fundada em 1626, pelos Padres Montoya e Mendoza, no monte Ybytyrú, na margem direita do Tibagi, nas terras de Pataguirusú Oybytycoi, próxima da redução de Encarnación, provavelmente na região do noroeste de Castro e Ponta Grossa.

San Pablo, fundada no final de 1626/início de 1627, pelos Padres Antônio Montoya e Simon Maceta, na margem esquerda do Ivai (Yñ-é-Y), na aldeia Iguacura, do cacique Güyrebera, há dois dias de marcha da redução de Encarnacion e também dois dias da San Francisco Javier, próxima de Villa Rica, em local hoje desconhecido, no centro do Paraná. Apesar do otimismo de Montoya, quando fundou esse povoado, este apresentou sérias dificuldades para o experiente Padre Simon Maceta, que dela ficou responsável. As constantes investidas dos encomenderos espanhóis e bandeirantes portugueses obrigaram os jesuítas a adotarem medidas defensivas como, por exemplo, a construção de paliçadas para a defesa.

San Pedro, fundada em 1627, pelo Padre Antônio de Montoya, algumas léguas à leste do Tibagi, possivelmente nas imediações dos atuais municípios de Ivaiporã, Manoel Ribas e Grandes Rios;

Arcangeles ou Los Angeles, fundada em 1627, pelo Padre Antônio de Montoya e Salazar, na margem esquerda do Corumbatai; à direita dos rios dos Fachinais (origem: aldeia Taioba, dos índios caingangues e Cabeludos, em local isolado e de difícil acesso no centro do Estado, possivelmente ao leste do atual município de Ivaiporã). Somente depois de dois anos de tentativas é que Montoya conseguiu estabelecer essa Redução, pois eram terras do temido cacique Taiaoba, um dos principais da região do Guairá, que liderava antropófagos, gente muito guerreira, terror dos espanhóis. Nas proximidades dessa redução foi que Montoya encontrou vestígios da passagem de habitantes do Brasil, quando da fundação de Assunção, pelo Caminho do Peabiru.

San Antonio, fundada em 1627, pelo Padre Antônio de Montoya, na margem direita do Ivai, possivelmente nas imediações dos atuais municípios de Ivaiporã, Manoel Ribas e Grandes Rios.

Concepción, fundada em 1627, pelo Padre Antônio de Montoya e Diaz Taño, à direita do rio Iguaçu, próxima da nascente do Corumbatai, em terras dos Guananas, do cacique Co-Ën, na aldeia Ipiturapin. Ao sul de Villa Rica, próximo do Tombo, das minas de ferro.

San Tome, fundada em 1628, pelo Padre Antônio de Montoya, ao leste do rio Corumbatai, na aldeia do Cacique Pindobá, esta constituída de mais de 1.000 famílias, à esquerda dos rio dos Fachinais, afluente do Ivai (índios guaianazes/tapuias), próxima da Arcangeles, possivelmente nas imediações de Ivaiporã, Manoel Ribas e Grandes Rios.

Jesus Maria, fundada entre 1629 e 1630, a última do Guairá, pelos Padres Antônio de Montoya e Mendoza, na margem direita do Ivai ("nascente do Huybay" ), entre Arcangeles e San Antonio, possivelmente entre os portos Planaltina e São Carlos.

Santa Maria Maior, fundada em 1626, no rio Icarai, na margem direita do Rio Iguaçu e a esquerda do Paraná, bem afastada das demais, pelos Padres Diogo de Boroa e Cláudio Royer. Assolada pelos paulistas em 1633, transladou-se para as imediações do antigo povo dos Mártires, donde passou para melhor situação, à meia légua da margem direita do rio Uruguai.

A literatura que cita a existência de outras reduções além das que constam acima. O mapa de Juan de la Cruz Cano Y Olmedilla, cartógrafo do Rei da Espanha, de 1775, assinala também outras reduções no Guairá, como, por exemplo, Copacabana, no rio Piquiri; e Tambo, no rio Piquiri.

Outros autores acrescentam mais as reduções de Santana, no rio Ivai (transferida a população para a redução Los Angeles); Assiento de la Iglesia, no rio Ivai; e São Roque Evangelista, no rio Ivai.

Muito provavelmente essas últimas foram tentativas de consolidação de povoados indíginas, embriões das reduções jesuíticas, que não prosperaram.

Nas reduções de Loreto e San Ignacio Mini foram construídos templos melhores do que os que existiam em Assunção, na época. As igrejas contavam com órgãos e corais de índios, possuíam absides triplos e altares com retábulos pintados. Em ambos os lados das naves centrais das igrejas existiam filas de colunas com pedestais e capitéis, com pórticos e muitos ornamentos trabalhados em cedro.

Esses povoados dispunham-se em forma quadrangular, com ruas retas e casas funcionais. Cada residência tinha pátio com galinheiros. Nos campos cultivavam cereais e algodão, este utilizado pelos índios para a confecção de grande variedade de tecidos. Nas elevações viam-se bandos de ovelhas e cabras e nos currais vacas e mulas.

Os próprios jesuítas desempenhavam as funções de vinhateiros, carpinteiros, pedreiros e arquitetos, transmitindo aos indígenas os seus conhecimentos.

Até 1628, quando os bandeirantes de Piratininga passaram a atacar com mais freqüência as reduções do Guairá, elas prosperavam nos vales dos rios Tibagi, Ivai, Piquiri e Iguaçu, somando perto de 100 mil índios reduzidos.