quinta-feira, 31 de julho de 2008

Movimento Nacional


Campanha em defesa do diploma de jornalista ganha novos apoios

As ações da FENAJ, dos 31 Sindicatos de Jornalistas e de entidades parceiras da campanha em defesa do diploma ganharam novas e importantes adesões nos últimos dias. A agenda de atividades preparatórias à Semana Nacional de Luta também teve o anúncio de mais eventos. O movimento cresce com velocidade à medida que se aproxima o julgamento, no Supremo Tribunal Federal (STF), do Recurso Extraordinário (RE) 511961, que questiona a constitucionalidade da exigência do diploma como requisito para o exercício da profissão.
No Rio de Janeiro, nova manifestação do Presidente da Fundação Biblioteca Nacional e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Muniz Sodré, teve boa receptividade. Em seu mais recente artigo, ele afirma que “Informação não é mero produto, nem serviço: é o próprio solo da sociedade em que vivemos, é o campo onde joga o cidadão. Se a garantia dessa formação adequada se espelha hoje no diploma, viva o diploma” (para acessar o artígo, clique aqui.
O professor de história e candidato a prefeito de Salvador pela Frente de Esquerda (PCB, PSOL e PSTU), Hilton Coelho, também respaldou o movimento. Ele sustentou em nota pública que “Tratamos aqui não apenas de uma questão corporativa. A luta travada pela Federação Nacional dos Jornalistas e os Sindicatos de Jornalistas de todo o Brasil se insere na luta mais geral pela verdadeira democratização da comunicação e para assegurar que os profissionais que atuam nesta área tenham um alto nível de qualificação técnica, teórica e, principalmente, ética”,
Já no Rio Grande do Sul, a Câmara de Vereadores da cidade de Esteio aprovou, na semana passada, moção de apoio à luta em defesa do diploma. Na defesa da moção de apoio, o presidente da Câmara, Luiz Duarte, ressaltou a importância do diploma do Jornalista como em qualquer outra profissão, que exige preparo, embasamento teórico nos bancos universitários e ética. "O diploma é uma das principais garantias de compromisso com a informação séria, livre e de qualidade", comenta.
Os dois mais recentes apoios à luta dos jornalistas e da sociedade na Paraíba foram do presidente da Associação Paraibana do Ministério Público, João Arlindo Correia Neto; e do presidente-licenciado do Clube dos Oficiais do Estado da Paraíba, Coronel Francisco de Assis Silva.
No Espírito Santo, dia 4 de agosto, às 15h, a presidente do Sindicato dos Jornalistas, Suzana Tatagiba, ocupará a Tribuna Livre da Assembléia Legislativa para falar da Campanha Nacional em Defesa do Diploma e da Regulamentação da Profissão. No dia 13 de agosto tem panfletagem de material da campanha no 4º encontro do evento Sustentável 2008, que será realizado em Vitória. Diretores do sindicato e estudantes também farão panfletagem nas faculdades no retorno das aulas.
O curso de Jornalismo do Ielusc, em Joinville (SC), vai marcar a semana de mobilização em defesa da formação superior com uma audiência pública na Câmara dos Vereadores, dia 14/8, quinta, às 19h30. A iniciativa buscará envolver a comunidade acadêmica, os profissionais de imprensa e organizações da sociedade.
Qualquer cidadão pode encaminhar sua manifestação de apoio ao diploma. Para isso, basta entrar em "eu apóio a regulamentação" para deixar mensagem ou apenas para incluir o nome como apoiador no abaixo-assinado digital

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Lei Seca modifica comportamento de motoristas

"Passado um mês da implantação de leis mais severas para quem dirigir alcoolizado, a quantidade de acidentes automobilísticos diminuíram acentuadamente." Esse é o parecer do Sub-Tenente Luis Marques Modesto, do 2º Pelotão da 3ª Companhia do 5º Batalhão, que atua em Ibiporã. O Sub-Tenente afirma que nunca foi permitido dirigir alcoolizado, mas havia uma tolerância. Hoje, devido o maior rigor, a multa, para quem for flagrado, dirigindo alcoolizado, pode chegar a R$985,00, além de culminar na apreensão do veiculo, da habilitação e na suspensão da CNH (Carteira Nacional de Habilitação) por um ano. "As ocorrências são baixas e em termos de fiscalização, até o momento foram dois casos efetivos de embriagueis no perímetro urbano de Ibiporã, mas sem acidentes", relata.

Para que haja maior controle e se evite tragédias, Modesto afirma que a população deve ser atuante e denunciar, pelo 190, motoristas que forem flagrados bêbados, além de descrições como placa, marca, modelo e cor do veiculo. Com isso há apreensão e se evita acidentes.

A tolerância para o álcool é zero e se no bafômetro for detectado a porcentagem de até 0,6 miligramas, o motorista é submetido a sansão administrativa, desde que não se envolva em acidente. Acima da referência, além das penalidades administrativas, ele se submete ao artigo nº. 306, do Código de Trânsito, que configura crime com pena de seis meses a três anos. "Um a dois copos de cerveja ultrapassa 0,6 miligramas", completa Modesto.

O Sub-Tenente explica que o maior rigor preserva vidas e diminui os gastos do Governo Federal com hospitais. "A redução de acidentes desafoga hospitais. Muitos não acreditam nas leis, pois há pessoas que se envolvem em acidentes e são liberados por fiança. Se houver vítima, o infrator deveria ficar detido até determinação do juiz". O Sub-Tenente tem toda razão. Hoje, no Brasil, mesmo que o motorista faça uma vítima fatal, que resulta em morte, através da fiança, pode ganhar a liberdade. Como no último dia 20, quando um acidente deixou duas vítimas fatais na PR 445, KM 81,700. O caminhão Mercedes-Benz, placas AHD 0543, de Cambé, conduzido por José da Silva Ramalho, 50 anos, colidiu na traseira da motoneta Jog Yamaha, placa AKC 2922, de Cambé, que tinha por condutor José Luis da Silva, 59 e como acompanhante Maria das Graças Soares, 53. Com o choque, as vitimas foram a óbito no local e o condutor do caminhão se evadiu. Denunciado pelo 190 e localizado, Ramalho passou pelo teste do etilômetro, que constatou o volume de 0,65 miligramas/litro de álcool. O mesmo foi encaminhado a Delegacia de Cambe e autuado no artigo 165 do Código de Transito, que é dirigir embriagado, além de responder processo por homicídio.

Este tipo de situação revolta a todos. Mesmo com a polêmica e o maior rigor da lei, os moradores de Ibiporã, em unanimidade disseram que a severidade evita mortes, como o exemplo de Valdomiro de Caires, 57, morador no Las Vegas. Ele diz que não se pode nem pensar de tirar essa lei. "Muitas vidas se foram devido à combinação de álcool e volante. Isso tinha que ser feito antes e quem bebe e provoca acidentes de transito tinha mesmo é que ir para a cadeia, como também aqueles que abusam do excesso de velocidade. O Brasil tinha que acabar com o habeas-corpus. Ele é indicio de impunidade." Valdomiro presenciou acidentes envolvendo pessoas embriagadas. "A bebida torna a direção perigosa. Deve existir tolerância zero para que haja mais respeito", conclui.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Notas Eleitorais

Segundo o Cartório Eleitoral de Ibiporã, nesse ano não haverá alteração no número de cadeiras no Legislativo. Ao todo são nove vagas, de acordo com a quantidade de eleitores cadastrados, que em Ibiporã é exatamente 34.409, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Para quem não sabe, o Cartório Eleitoral cuida do Título de Eleitor, Registro de Candidaturas e prepara a eleição. Os funcionários do Cartório passam por treinamentos e disseram que as urnas eletrônicas já chegaram a Ibiporã. Ao todo são 98 locais de votação e a cidade possui 110 urnas, caso ocorra algum imprevisto.

No inicio de agosto começam a ser notificados os mesários que trabalharam no dia da eleição. Os cargos consistem em: Presidente, 1º e 2º mesário, 1º e 2º secretário. O treinamento, que será no Tribunal do Júri do Fórum, é de um dia.

"Dê uma aula de Cidadania nestas eleições. Seja mesário voluntário". Com esse slogan, o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná e Assembléia Legislativa convidam todos os paranaenses aptos a se candidatar voluntariamente para trabalhar como mesário no dia da eleição. Um mesário recepciona e orienta os eleitores, coordena trabalhos da mesa receptora de votos e colabora com a realização das eleições. As inscrições podem ser feitas no TRE (Tribunal Regional Eleitoral), pela internet, no site http://www.tre-pr.gov.br/ ou procurar o Cartório Eleitoral em Ibiporã, que fica na Avenida dos Estudantes, 351, com o Título de Eleitor em mãos. Ele funciona de segunda a sexta, das 8hs30min às 11 horas e das 13 às 17 horas. Como estamos no período eleitoral, o cartório funcionará aos sábados e domingos, das 13 às 17 horas.

Os voluntários ganham dois dias de folga por dia de convocação, vale alimentação no dia do pleito e aos estudantes universitários são vinte horas extracurriculares. Em caso de empate no Concurso Público, é critério de desempate, caso haja previsão em edital.

Vamos lá participe e exerça o papel da cidadania. Ser mesário voluntário significa saber que um país cresce com o seu povo e que cada cidadão deve fazer parte no processo democrático. Além disso, ele dá condições para que os eleitores possam exercer a cidadania, garantindo a transparência do processo democrático.

Fiquem em alerta! Na data da eleição poderá ser feita apenas a "manifestação silenciosa", onde o eleitor poderá ir com a camiseta do seu candidato votar. O agrupamento de pessoas com camisetas de candidatos, a distribuição de santinhos e carros de som estão proibidos. Se houver flagrante, a pessoa será encaminhada a um local fechado e liberada ao fim da votação. Se houver agravante, a pessoa sofrerá processo penal.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O sonho dos Piratas - Parte I

O relógio-cuco, que Márcio havia ganhado de um amigo que viajara a negócios para a Alemanha, estava colocado bem no centro da parede. Não se escutava outro barulho a não ser o dos ponteiros do relógio e o do suspiro de Márcio, que dormia profundamente com a janela aberta naquela quente noite de verão.
Apesar de ser jovem, Márcio, um executivo recém-formado em administração, montou, com seus sócios, um belo escritório no centro da cidade e já tinha uma agenda cheia de clientes. Como trabalhava muito, sempre dormia e acordava cedo. Nas horas de folga, preferia ficar em casa. Morava no litoral, tinha um bom salário, mas estava sozinho, pois ainda não havia encontrado a pessoa perfeita para dividir o mesmo teto. Mesmo assim, não se sentia isolado e paquerava as garotas que lhe chamavam a atenção.
Já eram mais de três horas da manhã, e o cuco, que saia de sua casinha as seis, ainda dormia quando Márcio começa teve um sonho estranho.
Estava no mar, perdido dentro de um pequeno barco, sem remos e alguém que o ajudasse. Desesperado, perdido e só, não via nada além de água. O que poderia estar acontecendo com ele? Por que estava ali, perdido no mar, sem ninguém para lhe ajudar? Tinha vontade de ir embora, mas não sabia o que fazer.
Já sem esperanças, ouviu um barulho ensurdecedor. Sentiu o vento e as ondas se agitarem e aumentarem a cada instante, balançando seu barco cada vez mais. De repente, apareceu na sua frente um grande barco com uma bandeira estranha. Seria dali que vinha o apito? Era a sua salvação? Márcio não titubeou, começou a gritar e a gesticular para chamar a atenção. A escuna acabou vindo em sua direção. “Ainda bem”, pensou. Uma corda foi jogada com a qual Márcio subiu na escuna. No convés, não avistou ninguém, dirigiu-se para a parte central, onde ficava o timão, e viu um senhor de os olhos verdes e uma barba branca. Apesar disso, não aparentava ser muito velho. Apresentou-se como Capitão Jean e foi logo informando que a tripulação estava repousando. Eles eram corsários franceses e acabavam de sair de um conflito com um navio mercante inglês. Saquearam ouro, prata e outros valores, porém, grande parte do tesouro havia caído no mar, assim como vários homens das duas tripulações. Ele também se apresentou e explicou que era brasileiro, morava no Rio de Janeiro e não sabia como fora para ali.
Só então percebeu que estava num navio de piratas.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O sonho - Parte II

Márcio lhe pediu que o deixasse em terra firme para poder voltar para casa.
— Capitão, onde estamos?
— Temos um carregamento de açúcar para interceptar. Não podemos perder tempo, pois outros piratas querem o “ouro branco” — foi a sua resposta.
“Como isso foi acontecer comigo?”, perguntou-se. Não conseguia acordar deste sonho, que o prendera ao mar e a um navio de piratas.
De repente, surgiu o navio mercante que deveria ser interceptado.
— Içar velas. Avante homens. Mirar os canhões.
As palavras do capitão lhe arrepiaram a espinha, pois iria começar o ataque.
No embate, as duas embarcações começaram a afundar. Desesperado, ele viu que a sua única salvação era o barco que os piratas estavam descendo para o mar.
Com ele, chegaram numa ilha e os outros foram buscar abrigo e socorro, deixando-o sozinho. Embora desesperado, ponderou que estava em terra firme e que nada seria pior do que estar perdido no mar.
Com fome, resolveu pescar um peixe e assá-lo numa fogueira feita com pedras e madeira. Porém, quando pegava a madeira, Márcio se deparou com uma linda nativa. A garota estava nua e ficou assustada ao vê-lo.
— Quem é você? — perguntou ela.
— Sou Márcio. Estou perdido e com fome. Como é seu nome?
— Sou Janaína e moro aqui.
Márcio não queria mais acordar daquele sonho, pois Janaina não era um pesadelo.
A nativa o levou até a uma cabana de tapera, onde havia colocado, sobre uma folha de bananeira, peixes, frutas, água etc. Quando saciou a fome, ela disse que aquele era o seu futuro e que, algum dia, eles iriam se encontrar para viver um grande romance. Tudo o que havia acontecido era coisa do destino e que as coisas mudam não conforme as nossas vontades, mas conforme as nossas ações. Ele concluiu que, durante todo aquele tempo, só desejou algo que o confortasse.
A nativa disse que lhe daria uma prova de que tudo aquilo era verdade.
— Você alcançará tudo o que quiser. Insista , nunca desista.
Quando ela ia tocar seus lábios, ele acordou com o barulho do despertador.
Durante vários dias, a imagem de Janaína não saiu de sua mente. Nas ruas tentava ver a imagem de Janaína refletida nos prédios, como uma santa ou uma divindade, mas nada de encontrar a misteriosa nativa. Voltava para casa com esperanças de sonhar com aquela paixão, mas nada acontecia. Tentava de todas as formas lembrar aqueles poucos momentos que pareciam eternos. Por mais que tente sonhar com a garota, baseado nas palavras de que tudo o que você faz resulta numa conseqüência, nada de diferente acontecia.
No entanto, sua obstinação, foi tanta, que começou uma busca insensata. Colocou anúncios em jornais que descreviam a moça. Foi para internet e buscou inúmeros perfis. Mas nada encontrou. Sozinho, se lembrava da situação em que estava desprotegido e foi confortado por aquela que lhe deu de comer e beber.
Começou a acreditar que tudo aquilo não passava de um sonho, uma alucinação. Desistiu, sabendo que a vida é real e que nunca se deve entregue ao sonho e não vivendo baseado em ilusões. A vida é feita de competições e ele não podia perder tempo alimentando desejos insólitos e infundados que se baseavam em irrealidades provocadas pelo desejo e até quem sabe pelo stress moderno.
Márcio, novamente levava uma vida normal e pacata, com suas rotinas e cumprindo suas obrigações. Em seus sonhos, já não tinha mais devaneios ou ilusões contraditórias, mas por incrível que pareça, sonhava com coisas relacionadas ao seu trabalho, como o esforço para não perder um negócio ou não perder um cliente.
Mas, como a vida e a sua formação são mistérios que ninguém pode explicar, Márcio, chega a casa, liga sua secretária eletrônica e ouve um recado. Quem poderia ser? Ao ouvir a mensagem, a pessoa do outro lado da linha se referia ao anúncio no jornal que procurava uma garota que morava próximo à praia e se chamava Janaína. A moça falou que se ele estivesse interessado, poderia ligar para ela, mas no entanto, ela deu um número muito estranho: 300-300-3000.
- Que número diferente, acho que vou ligar agora mesmo.
Já era tarde, se passavam das 23 horas, mas mesmo assim, ligou para Janaina.
- Alô? Gostaria de falar com a Janaina.
- É ela mesma, quem fala?
- Sou eu, o Márcio, que colocou o anúncio no jornal.
- Há, é você, porque demorou tanto para me ligar? Faz duas semanas que estou tentando falar com você e nada.
Ele não entendeu a conversa da moça, pois escutou a gravação naquele dia. Mas, para não ser chato, inventou que estava viajando e que só hoje conseguiu ouvir os recados.
Como ele havia ligado para ela, começaram a conversar e ficaram muito amigos. Ela lhe falou alguns segredos e ele lhe fez várias confidências e declarações.
A amizade e a cumplicidade aumentou e os dois resolveram se encontrar na beira da praia, como ela sugeriu. Com encontro marcado, Márcio vai dormir e novamente sonha com Janaina, já não mais despida, mas com uma bela roupa branca que significava a pureza. No sonho, disse para ele não ficar preocupado, pois gostava muito dele, mas não podia ir, pois fazia parte da sua imaginação e representava um desejo oprimido.
No dia e na hora marcada, Márcio coloca sua melhor roupa e foi ao encontro. Senta-se num banco e a espera. Ela não aparece e ele ficou mais de quatro horas esperando. Inconformado, liga para o número 300-300-3000, no qual ninguém atende. Insatisfeito, liga para operadora telefônica e a mesma informa que o número não existe. Sem entender nada, se vira para o mar e nota que o mesmo navio que o havia recolhido do mar, passava bem a sua frente. Ele não entendeu e ao fechar os olhos e os abrir novamente, notou que o navio havia desaparecido.
Vai embora e imagina como aquela moça que ele conheceu por telefone e conversou durante vários dias não foi ao encontro e ele, ao retornar a ligação, é informado que o número não existe mesmo ligado várias vezes. E aquele navio, como apareceu e desapareceu misteriosamente?
Quando se deita, pensando em sonhar com Janaina, Márcio é acometido por uma febre e vai ao médico. A febre aumenta e Márcio se sente muito mal, ao ponto de ficar internado durante uma semana.
Conclusão: O médico de Márcio diagnosticou que ele sofria de dois distúrbios psiquiátricos conhecidos por bi-polar e esquizofrenia. No bi-polar, as pessoas sofrem alucinações e tem muitos devaneios, acreditando que situações imaginárias são reais. O médico disse que o barco e Janaina não eram mais do que fruto de sua imaginação. O barco representava as suas angústias e a nativa, uma fuga encontrada por seus anticorpos. Ao ligar para a moça, num número desconhecido, Márcio se induzia a acreditar que estava falando com alguém, mas, na verdade, tudo não passava de alucinações, que devido a sua vida estressante, gerou um quadro esquizofrênico depreciativo em que necessitava de alguém que o ajudasse à auto se afirmar e encontrar seus desejos.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Mototaxi - Parte I

Há tempos atrás, quem quisesse locomover-se durante a noite, comparecer a compromissos com urgência e não tinha condução própria, tinha que adiar ou chamar um táxi. Pensando nisso, motoqueiros se reuniram e criaram uma nova profissão, rendosa, mas perigosa: o mototaxi. O serviço funciona da seguinte maneira: o motoqueiro fica numa central com telefone fixo ou celular e o cliente liga pedindo corrida, com variação de preços dependendo o lugar solicitado. Quando surgiu teve muitas reclamações de taxistas devido à concorrência desproporcional. O valor cobrado pelo mototaxi é quase 70% mais barato. Mas não creia que as reclamações ficavam só nisso. Alguns passageiros alegam que apesar de barato e rápido, oferece pouca segurança e exposição a acidentes. A última reclamação é o uso do capacete coletivo, que segundo a Vigilância Sanitária, dissemina doenças pela falta de higienização. Os fatos citados mostram que controvérsias e discussões sobre o mototaxi foram refletidos em jornais, debates televisivos e alvo de pendengas judiciais que impediram o serviço por longo tempo. Causou revolta da classe, que se organizou em grupos e sindicatos que representam e defendem os interesses. Organizados, fizeram carreatas e buzinaços para a profissão ser regulamentada. Após debates entre a classe, sociedade, imprensa, meios jurídicos e políticos, o mototaxista foi reconhecido e regularizado pela lei. Hoje, pipocam aos montes em diversas cidades do país. Foi num pontos desses, criado, regularizado e funcionando conforme a lei, que atuava Marcus, um rapaz de 28 anos, que pagava as parcelas da moto financiada em 36 vezes. Havia pagado até aquele dia cinco parcelas. Marcus tinha muitas dificuldades, como chuva, frio, noites mal dormidas e perigo iminente de assalto. Tirava em torno de 50 reais por dia. Nos finais de semana e à noite, o lucro era maior, chegando à casa dos 80 reais. Deste montante, pagava 10% de comissão ao dono da central, gastava em torno de 20 reais com gasolina e o resto guardava para saldar dívidas da moto e manter sua família. O trabalho era honesto, mas não tão bem remunerado devido a noites mal dormidas e a periculosidade de perigos letais como ser vítima de assalto ou na pior das hipóteses ser alvo de um latrocínio. Nas noites chuvosas, as corridas diminuem drasticamente devido os passageiros não se exporem à chuva ou medo de acidentes. Nestas noites os assaltos aumentam ainda mais. A chuva batia com intensidade no telhado, quando chega ao ponto 1048, o mesmo onde Marcus trabalhava com a moto 15.509, um sujeito que pergunta o valor da corrida. O rapaz era saudável e aparentava 22 anos. Era alto, magro, branco com os olhos claros, usava jeans, camiseta azul clara e jaqueta preta. Marcus percebendo a entrada do estranho assustou-se com a visão devido ser mais duas horas. Ele se aproxima e Marcus não mostra reação. Chega mais perto da luz e é possível ver seu rosto com mais detalhes e intensidade. Com a voz rouca, pergunta o preço da corrida até determinado bairro. Apesar do horário, viu que o rapaz não estava mal intencionado e com um sorriso nos lábios, diz que a corrida sairia por 10 reais devido à distância e a chuva torrencial, aquele dia parecia que caia um dilúvio. O jovem retribuiu o sorriso e disse que voltava do trabalho, perdeu o ônibus e tinha que acordar de manhã. Barganhou um preço mais baixo. Marcus disse que não. O sujeito então colocou a mão direita para trás e sacou do bolso a carteira. Eram duas notas de cinco reais. O mototaxista perguntou o endereço, o caminho mais rápido e seguro. Entregou o capacete e uma capa para se proteger da chuva. Vestiu sua capa e o rapaz subiu na moto.
- Esta corrida vai ser difícil. A chuva está muito forte. Disse Marcus. Naquele momento, não sabia que sofreria a pior histórias da sua vida, que nunca mais gostaria de lembrar.

terça-feira, 22 de julho de 2008

O mototaxi - Parte II

O bairro era distante e Marcus acelerava para chegar ao destino. Conhecia aquela rota e sabia que todo cuidado era pouco para que algo de ruim não acontecesse. Nos primeiros quilômetros e apesar da chuva, a velocidade passava dos 80 quilômetros e o passageiro, que agora não demonstrava nenhum comportamento suspeito, abraçou Marcus com a mão esquerda e com a direita encostou algo em suas costas. Era um revólver calibre 38 de cano longo. Assustado e prevendo o que se tratava Marcus não motivou nenhuma reação que pudesse dar fim a sua vida. O ladrão então deu a voz de assalto e disse se houvesse reação, acabaria com sua vida naquele instante. Marcus ficou quieto e parou a moto no meio da chuva, próximo a uma plantação de soja. Passado a tensão inicial e com uma arma apontada para sua cabeça, Marcus nota a aproximação de um farol. Imaginou ser uma ajuda e que estaria salvo. Levo engano. Do outro lado vinham os comparsas do bandido que o fazia passar por horrores. Permaneceu quieto e os marginais se aproximaram em outra moto. Os faróis altos indicavam para ele não olhar em seus rostos. Essa foi à ordem dada pelo bandido que apontava uma arma para sua cabeça. Chegaram afirmando que aquilo era um assalto e que não era para ele se preocupar. Queriam a moto para praticar assaltos a estabelecimento comerciais, postos de combustíveis, lojas de conveniências e farmácias que estivessem abertos naquele horário. Sem esboçar reação e o rosto abaixado para não ver a face dos algozes, Marcus ficou quieto e em pensamentos rezou para que os bandidos só estivessem interessados na moto.
Sem reação da vítima, os bandidos pilharam Marcus para que entregasse o dinheiro que tinha. Mas, por medida cautelar e de segurança, ele não andava com mais de 20 reais para troco. Deixava o resto guardado na central. Ficou com medo de estar com os bolsos vazios e ser morto. Não pensava em nada. Queria o fim do sofrimento, que os ladrões levassem sua moto, pertences como relógio e celular e a pequena quantia de dinheiro que tinha. Podiam levar tudo desde que não tirassem sua vida.
O momento angustiante fez que poucos minutos se tornassem em eternidade. Cenas de sua vida passavam-se em sua cabeça. Via sua família e rezava para sair daquela fria. Jamais se arriscou tanto para ganhar tão pouco dinheiro. O medo, o pavor e o horror tomavam conta do seu corpo. Não havia como recuar naquele momento. Entregou tudo na mão de Deus e rezou mais uma vez para que tivessem compaixão de sua vida.
- Vamos lá, vamos lá, compadre. Dá logo a chave da moto e todo o dinheiro. Também quero o relógio, o celular e os documentos da moto.
Pronto. O grito do ladrão tirou Marcus dum transe profundo. Sem pestanejar colocou tudo no banco da moto e virou-se de costas para não reconhecer os assaltantes. Colocou as mãos na cabeça e nem se lembrou que a moto foi tirada há pouco tempo e ainda tinha várias parcelas para serem pagas.
Desconfiados que Marcus chamasse a polícia, os bandidos covardes o fizeram tirar as roupas, amarraram as mãos e os pés e o jogaram na plantação de soja. Esse cuidado foi necessário parar gerar mais tempo na execução das ações criminosas.
Para Marcus foram horas angustiantes e dramáticas debaixo duma forte chuva. Seu martírio terminou em torno das seis horas, quando um senhor que passava de bicicleta, próximo à plantação de soja, notou uma diferença na coloração verde. Curioso, foi até Marcus, ajudou-o a libertar-se e chamaram a Polícia, que compareceu ao local e o levou até a Delegacia para prestar queixa. Na Delegacia, a primeira atitude foi ligar na central, dizer o acontecido e pedir a um colega para lhe buscar. Seu sofrimento, apesar da perca da moto, terminou. Com a chegada do amigo, explicou a situação e contou detalhes da noite de horror. O delegado de plantão, disse que as viaturas anotaram a placa da moto e qualquer movimento ou moto suspeita com as características seria abordada para averiguação detalhada. Os bandidos saíram em disparada, inebriantes e austeros com o sucesso e a façanha do crime. No entanto, não lhes cabiam um desfecho tão emocionante quanto o reservado aos bandidos do cinema. Após a prática do assalto e mesmo chovendo muito forte, eles saíram em alta velocidade pelas avenidas e estabelecimentos comerciais abertos, a fim de cometerem mais assaltos. O mototaxista que estava deitado na soja, só podia escutar de longe o barulho do motor de sua moto.
Bem de manhãzinha, após passar a noite acordado e com uma terrível dor nas costas por ficar deitado no banco da delegacia, Marcus é informado que um suspeito foi preso em flagrante, do outro lado da cidade com sua moto. Estava um pouco danificada devido a uma queda na perseguição. Os policiais que efetuaram a prisão e o recolheram no distrito, disseram que o marginal, junto com dois suspeitos, renderam o atendente dum posto de combustíveis e iniciaram um violento assalto ao caixa. Após a ação, a PM foi acionada, localizou os três, fez acompanhamento tático e perseguição. Depois de alguns minutos e iniciado um tiroteio, o marginal que estava na moto de Marcus levou um tiro e, ferido pelo disparo, não teve condições de empreender fuga e caiu no chão, para logo ser aprendido. Os outros dois bandidos se evadiram sem deixar pistas. Levado para a enfermaria da delegacia, o bandido foi imediatamente reconhecido pelo frentista e por Marcus. Naquela noite, o mesmo bandido assaltou um coletivo, a moto de Marcus e o posto de combustíveis. Todos os assaltos à mão armada. Machucado pela queda e com uma bala nas costas, o preso foi encaminhado ao hospital e depois para o distrito policial, onde esperaria o processo pelas atrocidades cometidas. Marcus recuperou sua moto e até hoje agradece a Deus por estar vivo. Sempre que faz uma corrida, toma cuidado e presta atenção para que o sofrimento daquela noite chuvosa não se repita nunca mais.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Famílias deixam fundo de vale para viver a realidade da casa própria

A entidade “O Ylê Axé Òpó Omin I”, fundada em 17 de dezembro de 1988, teve grande influência para que diversas famílias que moravam no fundo de vale do Aquiles Stenghel, conquistassem o direito à casa própria. A entidade é fundamentada na cultura africana e tem sua origem espiritual na mesma. “Nossa missão partiu da vontade de fazer um trabalho social. Oferecemos almoço a crianças carentes”, diz Terezinha Pereira da Silva, 48, que mora no Maria Cecília e coordena a entidade que atende em torno de 221 famílias do Vale da Lua, Vale do Sol, Primavera e Jardim dos Campos. “O Ylê Axé Òpó Omin I” leva a cidadania aos mais carentes através de oficinas culturais e o combate a pobreza, oferecendo um ofício e trabalho aos interessados. Há palestras de combate a dengue, Lei Maria da Penha (que defende o direito das mulheres), cidadania e parceiras com a Universidade Estadual de Londrina, com a “Universidade sem fronteiras”.
Quanto à conquista das casas, Terezinha relembra como foi o processo de invasão do fundo de vale. “Muitas pessoas não tinham condições de pagar aluguel. Em 1995, várias famílias invadiram o fundo de vale e deram início ao Vale da Lua. Em 1997 começou o Vale do Sol”, diz. Na ocasião, os moradores corriam riscos com a água contaminada, enchentes e falta de energia elétrica. Foi implantada a ‘torneira comunitária’ e a ‘energia elétrica comunitária’. Apesar disso, alguns moradores obtiveram dificuldades em pagar a energia, pela falta de emprego. “A COPEL não quis instalar energia individual devido à invasão ser um terreno irregular”. Observando que as dificuldades somente aumentavam, a comunidade se organizou e no ano de 2002, após diversas assembléias e reuniões na Prefeitura e na COHAB tiveram como resposta a remoção das famílias. Em 2005 as primeiras casas começaram a ser entregues no Jardim Primavera.
Uma das beneficiadas é a doméstica Idelzuita Valéria de Souza, 45. “Tinha muitas dificuldades para arrumar emprego porque não tinha comprovante de residência”, diz. Sua vida mudou. Se antes morava num fundo de vale, hoje mora numa casa de 57m² com quintal de 200m². “Planto árvores frutíferas e diversas ervas. Assim como eu, quero que outros conquistem suas casas”, afirma Idelzuita, com orgulho.
Carlos Eduardo Afonso, presidente da COHAB, diz que ao todo serão entregues 257 casas até o inicio de novembro. 66 casas já estão ocupadas e são em torno de 70 operários, da região, que executam a obra.

sábado, 19 de julho de 2008

Moradores afirmam que durante três anos, foram descarregados mais de mil caminhões com entulhos no fundo de vale

No terreno onde fora construído o Conjunto José Giordano, em 1996, funcionava o Sítio Emaús. Haviam plantações de café, soja, algodão, pomar e uma grande represa. Diversas gestões de associações de moradores, em vão, tentaram fazer um campo de futebol no Giordano. Para isso, foram despejados milhares de caminhões com entulhos no fundo de vale. “Durante três anos, a cada dia vinham mais de sessenta caminhões jogar entulho. Formou-se uma montanha com mais de cinqüenta metros. Por fim, o campo não saiu do papel”, diz Antonio Rogério Santos Ribas, 39, pioneiro no Giordano. Devido à falta de limpeza e roçagem, o mato cresceu e o fundo de vale se tornou depósito de lixo e potencial criadouro para insetos, como o mosquito da dengue, além de cobras. “Antes dos entulhos, era feita a limpeza e roçagem do fundo de vale. Tamanha era a limpeza, que até tentaram invadir o local”, diz Jiobide Pinto de Souza, 35. Celso Melchiades, 48, membro da FECAMPAR (Federação das Entidades Comunitárias e Associações de Moradores do Paraná) confirma o alerta. “Foram encontrados pneus e lixo hospitalar no fundo de vale. Jogaram um cachorro morto em frente da minha casa. O matagal virou esconderijo de marginais. É perigoso uma criança ir brincar no local, cair num fosso ou se cortar com pedaços de piso, vidro ou vasos sanitários”, completa Celso. Um dos primeiros moradores do Giordano, o comerciante José Adilson Santos, 44, conhecido como Tamarana, diz que a revolta dos moradores é tanta, que existem vídeos gravados com os caminhões despejando entulho. Tamarana afirma que após muita insistência, a CMTU (Companhia Municipal de Transito e Urbanização), forneceu nove placas indicando que é proibido jogar lixo no local. É comum, moradores de outros bairros depositarem lixo no fundo de vale. “A CMTU deveria multar quem faz isso”, diz o comerciante. Em resposta ao ZN, o secretário de Meio Ambiente, Gerson da Silva, disse que a empresa Só Obras foi à responsável pelo lançamento de entulhos, a pedido da Associação de Moradores do José Giordano. Sendo que em 2007, um caminhão da empresa foi apreendido, ficando proibido de se jogar entulho no local. A infração/multa será compensada/revertida na reforma do Parque Arthur Thomas. “Não há como punir os responsáveis, muito menos se fazer a retirada do entulho”, diz Gerson. O secretário afirma que para essa gestão não existe nenhum projeto para o fundo de vale, devido o custo ser muito alto. “A atitude partiu da Associação de Moradores por falta de conhecimento. Serão necessários engenheiros e técnicos para um estudo aprofundado”, conclui. Luis Bárbara, atual presidente da Associação de Moradores do José Giordano afirma que “aquilo não começou de uma hora para outra e isso dura mais de cinco anos”, se referindo ao acumulo de entulho no fundo de vale. Bárbara diz que não há previsão para que tudo seja solucionado e que o campo já poderia ser construído, mas há impedimentos jurídicos. “Se houver liberação, entramos com as máquinas e construímos o campo”, concluí. Quanto a capina e roçagem, o responsável, pelo setor, Marcelo Barreto, da CMTU, afirma que foram diversos os ofícios encaminhados a companhia e que em breve, será feita a limpeza da área.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Era mesmo um milagre???


Numa pequena cidade do interior, cuja principal fonte de renda era agricultura familiar, o povo simples mantinha vivos em seus corações o espírito nativo, as lendas e os costumes. Os “causos” deixavam todos abismados durante dias. Tia Nega, uma centenária que viveu na época da escravidão, com os cabelos mais brancos do que algodão, contava a maioria deles.
Os mais novos, sempre ávidos e curiosos, se reuniam perto dela para escutar suas histórias que deixavam todos com medo até de ir embora na escuridão. Era sempre assim, principalmente em noite de lua cheia.
Era um “fórfel” danado quando descobriam que ela tinha uma nova história para contar, muitas vezes inspiradas em cordéis que alguém trazia, como o de José Costa Leite: “A véia debaixo da cama e a perna cabeluda”. Esse cordel provocava tanto medo, que já vinha com a Oração da Pedra Cristalina, que além de proteger quem a lesse, também “fechava o corpo” contra as coisas ruins.
Quando Tia Nega contou a lenda de Quixambá, todos rezaram a Oração da Pedra Cristalina para ir embora.
A lenda era assim:
“No meio do cafezal por onde muitos de vocês passam para ir embora, mora, num buraco debaixo da terra, um monstro chamado Quixambá. Ele tem corpo de cachorro e a cara desfigurada de um homem. É tão feio que usa uma máscara feita com crânio humano. A fera astuta corre muito e ataca as pessoas pelas costas, mordendo seus calcanhares e arrancando a pele do pé. Depois da mordida, as pessoas não agüentam andar e o monstro despedaça suas vítimas para que sua matilha de filhotes se sirva.” Todos que estavam na roda se assustaram, mas Tia Nega continuou:
“Quixambá era um homem errante que vivia naquela região, escondido no meio dos cafezais. Dormia e comia com vira-latas e tomava leite no peito de cadela prenha. Disputava comida com um deles quando foi mordido e levado a um hospital para curar suas feridas. No entanto, fugiu de lá e ninguém mais o viu. Certo dia, um senhor que passava pelo meio do cafezal encontrou Quixambá agachado em meio às folhagens e lhe perguntou o que fazia ali. Repentinamente, sua feição mudou e com os caninos avantajados, Quixambá começou a latir. O senhor saiu correndo e, ao olhar para trás, percebeu que ele não era mais humano e, sim, uma fera com corpo de cachorro e face humana. Parecia o lobisomem.”
A lenda de Quixambá estava tão envolvente, que as pessoas se aproximaram para prestar mais atenção.
“Este senhor nunca mais viu Quixambá. No entanto, após este episódio, muitos animais de criação começaram a sumir. Em seus lugares, apareciam ossadas sem qualquer vestígio de carne. Assustados, os moradores da região desconfiaram de Quixambá e soltaram ratos no cafezal para localizar e capturar a besta fera. Numa destas armadilhas, escutaram um ratinho gritando e foram conferir. Lá estava, no meio do cafezal, Quixambá com o rosto cheio de sangue. Atiraram nele, desfigurando ainda mais seu já dilacerado rosto. Porém, tudo foi em vão. Quixambá era muito forte e, num salto, pulou na garganta de um deles. Numa mordida arrancou sua cabeça, grudou-a na boca e correu para dentro do cafezal. Ninguém mais teve coragem de caçá-lo. Dizem que ele usa justamente este crânio para esconder as marcas do seu rosto. Afirma-se também que Quixambá, apesar de ser uma fera, sabe que um dia foi homem e se amaldiçoa por ter comido com cães e virado um deles. Hoje, vaga pelos cafezais, plantações e matas da” região.”
Todos gelaram de medo. Joaquim, um rapaz que estava na roda, levantou-se e gritou:
— Olha o Quixambá!
Quem estava mais longe quase desmaiou com a brincadeira. Ninguém sabia se o monstro existia ou não, mas ficaram com receio de atravessar pelo cafezal.
Outra vez, tia Nega contou que leu, no jornal, que havia um homem parecido com Jesus, pois andava em cima das águas. Nesse dia, toda a criançada que brincava descalça pelas ruas foi até a casa dela escutar a história de umas pessoas que moravam perto de uma enorme represa abandonada, formada por um grande rio. A velha, com suas madeixas alvas como as nuvens e um olhar que brilhava e assombrava ao mesmo tempo, começou a contar:
“O povo estava angustiado, pois um barulho misterioso assombrava e irritava a todos, sem que ninguém soubesse o que era. Zé Pereira, curioso que só ele, escutava o turbilhão, que mexia as águas e causava um estrondo assustador, e queria ir até a represa ver quem fazia aquele barulho. Sua mãe, com medo do inesperado, falou para o filho se deitar.”
Antônio Pedregulho, seu pai, estava decidido a descobrir quem aterrorizava a comunidade. Levantou-se cedo e avisou que ia, com alguns homens, à represa, tamanha era a sua força de vontade e curiosidade. Eles caminharam dois quilômetros por uma picada aberta no mato, pedindo proteção divina. Lembraram que era para ser construída, naquela represa, uma grande hidrelétrica para fornecer energia e desenvolvimento para o local. Para que não derrubassem a mata nativa e alagassem as propriedades, os moradores se reuniram e pediram ao prefeito para não dar continuidade ao projeto, evitando assim um desastre ecológico. O prefeito, que só pensava em dinheiro e nem dava atenção à qualidade de vida da população, nem ligou. Revoltados, os moradores decidiram quebrar tudo e expulsar o prefeito e seus secretários.
Porém, naquele dia, o que havia na represa não eram homens com máquinas destruindo a natureza, e sim algo misterioso.
Eles chegaram ao lago e notaram algo estranho: o mato em volta estava mexido e derrubado por uma força sobrenatural. A área afetada era enorme, mas o que chamou mais a atenção foi o seu formato redondo com quatro marcas nos cantos.
Antônio Pedregulho se aproximou do lago, colocou uma vara na água e notou que ela era rasa. O pau afundava poucos centímetros. Todos concordaram que aquilo não era comum. Eles sempre iam pescar ali e sabiam que aquele trecho tinha pelo menos cinco metros de profundidade. Pedregulho resolveu entrar na água para se certificar que ali não tinha erosão ou sabotagem do prefeito.
— O pilantra jogou terra e pedra para ninguém pescar. Olha só o mato em volta todo derrubado. Ele mandou jogar muitos caminhões de pedra aqui.
Todos concordaram. Pedregulho tirou os sapatos e, sob o olhar aflito dos companheiros, entrou no lago.
— Se há pedras aqui, não as sinto embaixo dos meus pés — disse Pedregulho e começou a andar sobre as águas.
Todos avaliaram que aquilo era um milagre de verdade. Assustado, Pedregulho pediu para Zé Pereira chamar o pessoal da rádio comunitária. Como um foguete, Zé Pereira foi até a rádio e contou, ao vivo e em primeira mão, o que aconteceu. O radialista cético disse que só acreditava vendo. Chegando lá, viram Pedregulho andando por cima das águas num local que devia ter uns dez metros de profundidade. O radialista confirmou o furo. Ninguém acreditou. Equipes de televisão e jornal impresso correram para lá a fim de registrar o fato.
Quando a equipe de TV transmitiu ao vivo um caboclo andando na superfície das águas, todos passaram a acreditar que era um milagre. A partir daí, Pedregulho, um pacato cidadão, aparecia na TV como o Messias.
Estavam todos intrigados com a façanha de Pedregulho. Alguns afirmavam que ele era um farsante, pois devia ter colocado tábuas no lago e andado em cima delas.“
Um garoto que estava aos pés de Tia Nega perguntou se aquilo era verdade. Com o semblante sério, disse que sim, pois leu tudo no jornal. Ela então continuou a narrativa:
“Depois de virar celebridade momentânea, Pedregulho foi para casa. No entanto, naquela noite, o barulho voltou.”
De manhã, Pedregulho ligou para a rádio e mandou anunciar que quem duvidasse poderia ir até a beira da represa, ao meio dia, que ele mostraria a verdade. Muitos se aglomeraram em volta da represa e Pedregulho, de novo, entrou no lago sem afundar, convidando-os a entrar e comprovar a verdade.
Um morador da cidade, Pedro das Rocas, disse que, se Pedregulho era macho o bastante para entrar na água e não afundar, ele também era, e pulou no lago. Não afundou. Os mais corajosos fizeram o mesmo, eram mais de 50 homens andando sobre as águas. Zé Pereira percebeu que, no fundo do lago, havia uma plataforma. Por mais que tentasse, uma força gravitacional o impedia de afundar.
O lugar virou uma atração com direito a cachorro-quente, sorveteiro e pipoqueiro. De repente, o barulho ensurdecedor que apavorara a cidade durante várias noites, recomeçou. Zé Pereira, que estava na borda do lago, sentiu uma vibração e algo se movendo embaixo da água. Num movimento rápido, saiu correndo, como todos que estavam ali.
O barulho se tornou mais intenso, invadindo todo o ambiente. Como num filme de ficção científica, a água começou a borbulhar e saiu do lago um grande disco voador, captado pelas lentes dos fotógrafos. Zé Pereira não podia afundar devido à força magnética exercida pela nave.
O disco, que surpreendeu a todos, saiu do lago e subiu aos céus.
Absurdo ou verdade?
No outro dia, todos os jornais estampavam, na capa, a foto de Pedregulho andando pelas águas e, ao lado, a do disco voador.
A manchete anunciava:

DESVENDADO MISTÉRIO DO LAGO:
OVNI OPERAVA MILAGRE.